quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Limonada salgada

Você já ouviu a história da Limonada Salgada?
Essa parábola, que circula há anos nas redes sociais, é frequentemente apresentada como um experimento psicológico, embora não seja um estudo científico comprovado nos moldes acadêmicos. Ainda assim, sua força não está na metodologia, mas no que ela revela simbolicamente sobre educação, gênero e comportamento social.

A história é simples: duas turmas de crianças recebem limonada feita com sal. Um grupo é composto apenas por meninos; o outro, apenas por meninas. Depois de beberem, as reações são observadas. Os meninos reclamam quase de imediato, demonstram incômodo, dizem que a bebida está ruim e deixam claro que não querem repetir a experiência. As meninas, por outro lado, hesitam. Muitas dizem que gostaram, mesmo sendo evidente que a limonada está intragável. Quando questionadas, explicam que não queriam parecer rudes ou magoar quem ofereceu o suco.

Essa história costuma ser usada para ilustrar como normas sociais de gênero moldam comportamentos desde cedo. E embora ela não represente a experiência de todas as meninas — afinal, gênero, classe, raça, cultura, território e estrutura familiar atravessam essa vivência de formas muito distintas —, ela toca em um ponto sensível e recorrente: a expectativa de que meninas aprendam a se conter, a agradar e a silenciar desconfortos.

Homens, em geral, são educados para expressar vontades, correr riscos e ocupar espaço. Mulheres, por sua vez, são incentivadas a serem “boas”, conciliadoras e emocionalmente responsáveis pelo ambiente ao redor, mesmo quando isso implica ignorar o próprio mal-estar. Essa diferença de socialização não nasce do acaso, nem da intenção consciente de machucar; ela é parte de uma estrutura social que se reproduz geração após geração.

A questão que me inquieta não é afirmar uma relação direta e automática entre infância e vida adulta, como se tudo fosse causa e efeito. A realidade é muito mais complexa. Mas vale a pergunta: será que esse treino precoce para dissimular desconfortos — para sorrir diante da limonada salgada — pode ser um dos muitos fatores que, mais tarde, dificulta dizer “não” em situações mais graves? Em relacionamentos abusivos, ambientes de trabalho tóxicos ou dinâmicas em que o limite pessoal é constantemente violado?

Mencionei em outros textos que tenho uma filha. Criar um ser humano é um exercício permanente de responsabilidade e dúvida. Envolve proteger, acolher, sustentar, ensinar — e, principalmente, servir de espelho. No meu caso, faço isso sendo mãe solo. Tenho receios reais sobre a educação que ofereço, porque não desejo perpetuar o ciclo da mulher que suporta injustiças em silêncio, sejam elas de gênero, classe ou econômicas.

Refletir sobre a história da limonada salgada me fez olhar para mim mesma. Percebi que, muitas vezes de forma irrefletida, acabo reproduzindo padrões antigos: minimizar sentimentos, incentivar o “não foi nada”, valorizar o bom comportamento acima da honestidade emocional. Nenhuma mãe deseja que sua filha aceite situações degradantes, mas reconhecer como isso começa em gestos pequenos é um passo necessário para promover mudanças reais.

Também é quase óbvio que fui criada para não questionar e para não expressar “sentimentos ruins”. E isso não foi culpa da minha mãe; ela também foi formada dentro dessa lógica. Trata-se de uma corrente social longa, profunda e estrutural. Felizmente, há sinais de ruptura. Ainda existe resistência — muitas vezes inconsciente — justamente porque esses padrões são tão naturalizados que se tornam difíceis de enxergar.

Os ensinamentos transmitidos na infância moldam valores, limites e crenças. A parábola da limonada salgada ilustra como, desde cedo, meninas aprendem que manter o ambiente agradável pode ser mais importante do que reconhecer suas próprias necessidades. Mas a mudança não pode recair apenas sobre elas.

Criar meninas fortes significa ensiná-las que seus sentimentos são válidos, que desconforto merece atenção e que estabelecer limites não é falta de educação. Significa permitir que digam “não gostei”, “isso me incomodou”, “não quero”. Ao mesmo tempo, criar meninos empáticos é ensiná-los a ouvir, a respeitar limites, a compreender que suas vontades não são as únicas que importam e que consentimento não é negociação, é princípio.

Conversas simples fazem diferença: perguntar o que a criança sentiu de verdade, validar emoções sem corrigi-las, explicar que ninguém é obrigado a agradar para ser aceito. São nesses momentos cotidianos que se constrói uma base emocional mais justa.

Toda essa reflexão nasceu de uma história simples e quase banal. Ainda assim, ela me levou a questionar os limites que estabeleço para mim mesma e a forma como conduzo a formação da minha filha. Se esse texto provocar ao menos um incômodo semelhante em quem lê, ele já cumpriu seu papel.

E deixo, para finalizar, a pergunta que permanece ecoando desde a primeira vez que ouvi essa parábola:

Quantas limonadas salgadas você já tomou?

Referências:

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Estética como ferramenta da autoestima

 Autoestima - sub. feminino.
Qualidade de quem se valoriza, está satisfeito com seu modo de ser, com sua forma de pensar ou com sua aparência física, expressando confiança em suas ações e opiniões.


Quando penso em um assunto específico, costumo fragmentá-lo. Desmonto ideias, observo cada parte, tento compreender os pedaços antes de formar um todo. Com os padrões estéticos não foi diferente. Passei dias refletindo até que, por fim, decidi colocar minhas hipóteses em palavras.

Fui tola. As horas se passaram até eu conseguir esboçar um rascunho que considerasse honesto o bastante. Travar ao escrever é comum, mas este tema toca feridas específicas — e talvez por isso nada que me parecesse justo ou verdadeiro conseguisse sair.

Por muitos anos, minha referência de autoestima foi medida pela régua da estética. Uma régua rígida, imprecisa e cruel. Algo que atravessou minha vida de maneiras que, por muito tempo, fui incapaz de compreender completamente.

O valor pessoal e o valor social caminham juntos de forma perigosa. Aprende-se cedo que, para ser aceita, é preciso caber. Caber em expectativas, em padrões, em imagens pré-fabricadas. E sobre o corpo feminino recaem as cobranças mais severas. Ser bela, para uma mulher, não é apenas um atributo — pode definir status, pertencimento e até dignidade.

Cresci em uma fase da sociedade em que a beleza era sinônimo de magreza extrema. Ossos à mostra, ausência total de gordura ou músculos. Magra. Apenas magra. Não havia alternativa.

Imagine ser uma garota nos anos 2000 e 2010. Revistas repletas de dietas milagrosas, relatos de emagrecimentos “bem-sucedidos”, receitas de sucos detox, indicações de remédios e fotos — muitas fotos — de modelos extremamente magras. Essa era a regra. E a balança que indicava se estávamos no caminho certo não era apenas a do banheiro, mas os elogios e as críticas alheias.

O desvio desse trilho era rápido e silencioso. Aos problemas de imagem somavam-se compulsões, transtornos alimentares, ansiedade, depressão e decisões desesperadas em nome de um desejo que nunca se satisfazia.

Hoje, os padrões continuam existindo, mas vestem outras roupas. Estão ligados a procedimentos estéticos, à cultura da academia e a coaches — muitas vezes sem qualquer formação — que opinam sobre treinos e dietas como se fossem verdades absolutas. Espalhou-se, então, a ideia de que parecer saudável é o novo ideal de beleza.

Não concordo. Ser saudável é importante, mas não da forma como isso é vendido. A sensação é que não se busca saúde, mas aparência. Sempre houve um padrão moldado ao seu tempo, e sempre haverá. São mecanismos de controle, formas sutis — e eficazes — de manipulação.

Nunca me adequei a esses padrões. Não por escolha estética ou desejo de ser diferente, mas porque simplesmente não consegui. Na adolescência, foi torturante ocupar o papel da “gordinha”. Passei dias sem comer, tentando emagrecer a qualquer custo, enquanto me comparava às garotas consideradas bonitas. Alguém precisava ser feia para que outra pudesse ser bela — e esse lugar era meu.

Não sei exatamente em que momento abandonei o autocuidado. Talvez ele tenha se perdido quando a depressão me tomou por inteiro. Ainda assim, preciso admitir: a estética continua tendo um peso considerável na régua da minha autoestima.

Com o tempo, o amadurecimento me trouxe alguma clareza sobre o que é belo e sobre quem — ou o que — devo ser. Hoje entendo que essa adequação insana aos padrões de beleza não consome apenas a saúde física e mental, mas também destrói valores pessoais, tritura identidades e sustenta uma autoestima instável, sempre à beira do colapso.

Quando me olho no espelho, enxergo defeitos. Gorda. Estrias, consequência de uma gravidez. Seios caídos pela amamentação. Celulites, unhas roídas, cabelo desalinhado, tatuagens à mostra, cicatrizes de acne. Tento não me fixar apenas nisso, mas depois de tanto tempo acreditando que precisava ser perfeita, ainda tenho dificuldade de enxergar o que há de bom.

Não sei se este texto diz exatamente tudo o que eu gostaria de dizer. Muito ficou de fora. Talvez eu não consiga — ou não queira — dissecar ainda mais esse assunto. Resta apenas uma pergunta, que insiste em permanecer:

o que acontece quando a aparência muda, mas a autoestima não aprende a mudar junto?

domingo, 4 de janeiro de 2026

Um registro qualquer sobre a vida

Esse texto não tem um propósito claro, é apenas sobre falar de coisas aleatórias e servir como uma forma de passar o tempo. Escrever e ler sempre foram meus prazeres, e resgatar isso tem acalentado a minha alma.

Dessa forma, nasce mais uma postagem, talvez sem muitos questionamentos, apenas uma descrição sobre a vida.

A entrada deste ano foi calma, sem alardes, crises ou dramas. Somente eu, meio inerte, sobrevivendo ao tédio e assistindo o mundo girar.

No momento, a sensação é de tranquilidade… É uma sensação boa e, ao mesmo tempo, assustadora.

Confesso que não sei aproveitar as calmarias. Sinto uma certa tensão, como se algo ruim fosse acontecer — e, de fato, algo ruim pode acontecer, faz parte da vida —, logo, não consigo relaxar tão bem.

Houve algumas inspirações de temas para escrever, porém não registrei os pensamentos em nenhum lugar e acabei esquecendo completamente a linha de raciocínio. Senti-me levemente frustrada, mas não me estressei; talvez eu me recorde de tudo depois.

Prestes a entrar na primeira segunda-feira de 2026, tenho questionado alguns desejos e alinhado melhor algumas metas. Não adianta inventar dezenas de objetivos e não conseguir finalizá-los; isso só traz decepção e sensação de fracasso. As metas precisam condizer com a minha realidade, assim posso me cobrar sem peso na consciência.

Estou farta de ficar parada e ver o mundo seguir. Não quero mais ser alguém fútil.

Desejo melhorar muitas coisas e, ao fim deste ano, realizar um balanço. Quero me orgulhar de ter evoluído, ainda que a passos pequenos.

As cinco metas principais são:

  1. Saúde

  2. Bem-estar psicológico

  3. Segurança financeira

  4. Leitura e escrita

  5. Estudo

Como indicado no início, este não é um texto cheio de questionamentos, mas um texto expositivo sobre mim mesma — algo para que fique registrado e, no futuro, eu possa reler.