terça-feira, 5 de maio de 2026

A ausência também cria forma

Quando ela tinha 11 meses, nos separamos pela primeira vez. Apesar de ter ido embora, eu queria muito que ele ficasse. Depois disso, vivemos um longo período de idas e vindas.

Quando ela fez 3 anos, fui morar na casa dele. Me forcei a acreditar que estava feliz, que estava fazendo a minha família funcionar, que não haveria outra separação, que o amor iria curar tudo.

Nessa mesma época, me dei conta do óbvio: depois de anos e mais anos, apenas eu fazia tudo. Eu me convidei para aquele casamento. Eu me machuquei para manter o relacionamento. Me apequenei porque acreditava muito no amor. Nunca foi amor, enfim.

Ela, com seus 4, quase 5 anos, estava lá o tempo todo. Em todos os momentos, bons e ruins. Era o meu único e verdadeiro amor. A pessoa pela qual valia a pena viver. Então, sabendo que doeria em mim — mas que seria para o meu bem e o bem dela — eu me fui.

Quando o casamento rompeu de vez e ele percebeu que eu não voltaria mais, ele também partiu.

No início, dizia que precisava manter distância, que minha presença machucava. Mas o que ficou foi o silêncio. A cada final de semana, ela perguntava: “Mãe, o papai vem hoje?”. Eu não tinha respostas. O coraçãozinho dela se partindo — e eu sem poder fazer nada.

Ele sumia. Quase nunca mandava notícias e, quando mandava, eram desculpas: não tinha dinheiro, estava cansado, tinha trabalhado demais.

Eu também tinha trabalhado a semana inteira. Eu também tinha estudado. Eu também tinha cuidado de uma menininha todos os dias. E eu ainda estava lá. Ainda que cansada, quebrada e abalada, eu estava lá.

Minha mãe tem uma frase: “É nos pequenos detalhes que observamos o muito”. Demorei a entender. Hoje, eu vivo isso.

Ela já tem 10 anos. Não precisa de presentes caros, nem de passeios luxuosos. Precisa de amor, de cuidado, de presença. Precisa do pai.

Ele não está. Não estava lá quando ela se formou no prézinho, não foi às festas da escola, não esteve quando ela ficou doente, nem mesmo ligou no aniversário dela.

No começo, eu briguei. Ver o coração dela se partindo me revoltava, e eu exigia a presença dele. Com o tempo, entendi: ele não vinha porque não queria. E não se cobra presença de quem escolhe não estar.

Ontem, ela disse: “Meu pai é um bom amigo, mas ele não é um bom pai”.

Foi aí que eu entendi que a ausência também cria forma. E que ela já começou a aprender o que eu levei anos para aceitar.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Fundamentos de um recomeço

Sonhos são expectativas de uma realidade que ainda não foi vivida. São esperanças de algo melhor. Sonhos são vida.

Brotam em terrenos inimagináveis, criam raízes em solos de desejo e carregam, dentro de si, a ambição.

Bom, até aqui estamos falando de sonhos — não de obsessões que levam ao enlouquecimento. Falo de sonho, de amor, de segurança. No geral, sonhos são visões do auge de uma meta traçada.

O que muitas pessoas esquecem é que um bom sonho, para ser realizado, precisa de um plano.

Segundo os princípios da engenharia e da arquitetura, um plano estrutural é o detalhamento técnico (fundações, pilares, vigas, lajes) que garante a segurança, a estabilidade e a durabilidade de uma edificação. Trazendo isso para um âmbito mais metafórico, para que uma meta seja cumprida, é necessário planejamento.

Sim, planejar: construir uma base forte e sólida, entender o percurso, aprender com os erros, criar um plano estrutural.

Também é necessária constância, insistência, busca. As coisas não caem no colo — é preciso ir atrás.

Algumas pessoas até alcançam fragmentos de um sonho sem entender o que é organizar e planejar. Outras conseguem, mas passando por cima de quem estiver no caminho. No geral, ambas acabam despencando. Não ter estrutura te derruba como uma torre de Lego.

No geral, eu sei montar planos. Sou boa com isso, mas o meu problema é manter a constância.

E aqui o assunto se torna delicado.

Minha vida é cheia de planos e sonhos que não se concretizaram. Eu já me acostumei a ser um projeto inacabado. Pode parecer triste — e talvez seja um pouco. Ainda assim, tento não me abalar com as minhas dificuldades.

O problema é perder o interesse rápido demais, sair pulando de projeto em projeto, sem de fato concluir nenhum.

Bom, dizem que aceitar e entender os próprios erros e defeitos é o primeiro passo para a mudança. Não sei, pode ser verdade. Espero que seja, de alguma forma.

No momento, meu maior sonho é simples: concluir algo, viver a sensação do auge.

É curioso pensar que minha maior meta hoje é criar uma meta e levá-la até o fim. Parece estranho, mas é isso.

Viver um sonho deve ser incrível. Claro, devem existir momentos difíceis. Não dá para romantizar uma vida perfeita — porque ela não existe.

Mas, de qualquer forma, ainda é bom me apegar às esperanças que um sonho traz. Talvez seja por elas que, mesmo depois de tantos começos interrompidos, eu ainda queira tentar de novo, com mais cuidado, mais paciência — e, quem sabe, com fundamentos mais firmes dessa vez.

terça-feira, 14 de abril de 2026

A origem do meu fracasso

Segundo o dicionário, a palavra decepção significa:

Sentimento de tristeza, descontentamento ou frustração que surge quando expectativas, esperanças ou crenças sobre pessoas, situações ou resultados não se concretizam. Uma forma de desilusão ou desapontamento que ocorre quando a realidade difere do que era esperado.

Chega a ser assustador quando me dou conta da forma como um texto de dicionário pode externalizar sentimentos profundos — ainda mais quando o sentimento é algo que estou sentindo no momento.

Decepções fazem parte da vida, das fases, dos momentos, das pessoas e de tudo o mais. Porém, quando sentimos, é sempre surpreendente. As decepções não brotam em terras secas, não vêm de indivíduos desconhecidos ou de pessoas com laços afetivos positivos... Elas nascem e criam raízes onde não esperamos. Constroem-se nos ambientes que amamos e destroem confianças que demoram anos para serem construídas.

Decepção dói, corrói, machuca e cria dor... Decepção mata.

A nascente de tanta frustração vem de mim mesma. Essa é minha primeira fonte.

Eu nunca, de fato, me amei. Nunca fui boa para mim mesma, nem para nenhum outro ser humano. Isso é claro. Deixo essa dolorosa informação registrada: eu sou minha maior decepção. Esperava de mim mesma algo melhor, algo maior. Criei a expectativa de um mundo incrível e glorioso. Não cumpri o dever comigo mesma. Apenas sonhei e nunca fui capaz de realizar algo brilhante. Eu sou uma fraude ambulante, um grande desperdício de tempo e espaço.

A segunda decepção vem de onde eu imaginava que viria, mas ainda havia esperanças. Meu círculo familiar nunca foi exatamente estruturado. A configuração é estranha, mas ainda é uma família. Então, criei uma certa ilusão de que seria compreendida. Mas eu não sou, e nunca fui.

Apenas olham meus fracassos, apontam minhas falhas e esfregam nas minhas narinas o quão inútil eu sou. É dolorido viver isso. É dolorido ser a filha não funcional e improdutiva. Se bem que não julgo tanto. Depositaram em mim confiança e expectativa para, no fim, eu me tornar um grande nada.

Talvez a verdadeira dor não seja por não ser compreendida, mas por nunca, em nenhum espaço de tempo, questionarem a mim o motivo de eu não ter conseguido. Claro que vão falar sobre as mãos que se ergueram ao longo do caminho. Mas ninguém fala que a mesma mão que estenderam também foi a mesma que me empurrou.

Estou aqui, vivendo as minhas dores. Inalando as frustrações. Existindo num eterno vazio.

Essa decepção me impede de muitas coisas. Não tenho coragem de me olhar no espelho. Em alguns dias, eu não consigo me levantar da cama.

Enquanto eu me enrolo em mim mesma e me alimento das minhas amarguras, dentro da minha cabeça existe uma voz — a minha voz — gritando por ajuda. Ninguém escuta. Eu estou me esvaindo a cada dia.

Preciso me levantar e fazer algo pela vida. Mas questiono se, diante de tanto descontentamento, existe motivo para viver.

terça-feira, 31 de março de 2026

Últimas notas de março: Trinta e uma voltas depois

Seguir a vida, independentemente do fluxo, da intensidade ou do momento. Apenas seguir, mesmo quando tudo em mim pede pausa. Esse tem sido o meu lema.

Março sempre foi o meu mês. Quando meus pensamentos ganham volume, minhas críticas se tornam mais afiadas, meus planos mais frágeis e minha existência, inevitavelmente, entra em questão.

Viver março é cansativo. Às vezes, quase insustentável. Não reclamo da intensidade; há uma estranha honestidade nela. Apenas tento respirar dentro desse turbilhão de emoções.

O meu dia veio, marcou as 31 voltas em torno do sol e partiu como chegou. Sem anúncios, sem rupturas. Nada de novo, apenas a repetição cuidadosa do cotidiano: acordei, levantei, tomei café, tentei organizar o que parecia desalinhado, desperdicei tempo rolando feeds, comi um bolo trazido pela família e, por fim, dormir… Além deles, apenas um único amigo se lembrou de mim.

E, ainda assim, não houve surpresa. Não esperei nada, nem sequer me permiti construir expectativas. Aquela velha ideia: quem não marca presença não faz falta quando se ausenta. Não doeu. O que me desconcertou foi justamente isso: a ausência de dor, a indiferença serena diante do esquecimento.

No fundo, eu não queria comemorar. Queria me recolher. Fazer de mim um casulo, me embrenhar em mim mesma, desaparecer entre cobertas e pensamentos e apenas sumir.

Comemorações são rituais de passagem. São marcos, começos, pequenas celebrações de movimento. Mas eu permaneço presa a um ciclo onde tudo retorna ao mesmo ponto: caos, instabilidade, repetição. Eu não queria comemorar a minha existência. 

Isso não significa que desisti de viver. Há uma diferença silenciosa entre as duas coisas. Continuo seguindo. O fluxo oscila e a intensidade por vezes transborda, mas sigo, ainda assim.

Nunca fui de crer em divindades que interferem constantemente no curso da vida. Não tenho uma fé definida; talvez o agnosticismo seja a minha porta. De qualquer forma, não acredito que exista um Deus traça planos específicos e num olhar superior tenha decidido: “este será o caminho mais difícil”. Ainda que carregue o peso da culpa, creio que sou o produto das minhas próprias condutas.

E março, como de costume, me devolve perguntas.

Sei que não fiz as melhores escolhas. Compreendo as consequências, aceito os combates que eu mesma provoquei. Mas há algo que ainda me inquieta: é preciso tanto? Tantas dores, tantos fracassos, tantas perdas? Até quando esse equilíbrio instável, essa vida em corda bamba?

Assim, entre respostas que não vieram e silêncios que permaneceram, encerro mais um ciclo. Fecho o meu mês — o meu março — não com conclusões, mas com a estranha sensação de continuidade.

Como se tudo ainda estivesse por acontecer.

Até o próximo ano.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Mais algumas notas de março: As casas respiram à noite

Sabe aquelas noites em que a insônia insiste em pesar sobre os ombros? Quando os olhos simplesmente se recusam a fechar? Pois bem, essas madrugadas já se tornaram familiares para mim. Com o tempo, aprendi a aceitá-las e até a encontrar certo conforto nesses intervalos de vigília.

Numa dessas ocasiões em que o descanso não quis aparecer, passei a vagar pelos cômodos da casa. Do quarto para a sala, da sala para o banheiro, do banheiro para a cozinha e da cozinha até a varanda. Um percurso repetido tantas vezes que já parecia coreografado, como se fosse parte de um velho repertório.

Quando cheguei à varanda, acomodei-me numa cadeira estofada e deixei a cabeça repousar sobre a mureta. Fiquei ali por algum tempo, observando o céu noturno. As nuvens cobriam tudo, escondendo o luar e deixando no ar aquele pressentimento silencioso de chuva próxima. O quintal permanecia mergulhado na escuridão, enquanto as árvores balançavam lentamente ao compasso do vento. O silêncio era denso, quase sepulcral.

A mesma solidão que, por vezes, me consome é também aquela que me acolhe em noites como essa. Quando os dias se tornam intensos demais, encontro algum alívio em me recolher durante a madrugada, dentro desse espaço silencioso que carrego em mim. É um repouso estranho, mas necessário. Algo que, de certa forma, acalma minha mente cansada.

A casa permanecia apagada, e a única claridade vinha das janelas das residências vizinhas. Não havia muito a fazer além de permanecer ali e permitir que aquele instante existisse.

Era tudo tão quieto, tão sereno. Naquela madrugada, meus pensamentos não gritaram como costumam fazer. Em vez disso, vieram em forma de sussurro, como um convite delicado para olhar o mundo com menos peso. Foi assim que acabei me lembrando das minhas antigas fantasias de infância.

Quando criança, minha imaginação era fértil. Eu gostava de acreditar que os objetos inanimados possuíam algum tipo de vida secreta e que, quando ninguém estava olhando, respiravam, se moviam e até conversavam entre si.

Era uma ingenuidade doce, quase ingênua demais. Ainda assim, enquanto permanecia ali naquela quietude, percebi que talvez houvesse um pequeno fragmento de verdade escondido dentro dessas fantasias. Durante as madrugadas silenciosas, as construções ao redor parecem adquirir uma espécie de alma — algo que não conseguem revelar à luz do dia, mas que se insinua quando tudo repousa. Seus vidros empoeirados, os matos rasteiros no quintal ou as telhas gastas pelo tempo parecem carregar histórias que ninguém escuta.

Talvez seja apenas imaginação… mas encontrei certa magia nas casas ao meu redor. E também percebi algo semelhante na minha própria morada, que um dia foi meu castelo e hoje continua sendo o castelo da minha filha.

Enquanto muitos se entregavam às folias da madrugada, eu vivia algo silencioso, quase secreto. Agradeci, em pensamento, à minha mente por ter me conduzido até a varanda. Entre todas as pequenas experiências noturnas que já tive, aquela certamente foi uma das mais singulares.

Respirei mais uma vez. O ar estava pesado e morno.

Então me levantei e voltei para dentro. Ainda precisava insistir um pouco mais no sono. Mas, naquela noite, a madrugada já tinha me oferecido companhia suficiente.

domingo, 15 de março de 2026

Outras notas de março: Caminhante

Antes, quando eu não tinha medo, costumava andar por bairros aleatórios, ruas desconhecidas e me aventurar por caminhos incertos. Era quase como um hobby peculiar: vagar por lugares, conhecer o desconhecido e apreciar as formas ao redor.

Era muito mais que um exercício físico. Era um processo de autoconhecimento, no qual, enquanto eu caminhava e observava a cidade, colocava meus pensamentos em ordem. Uma espécie de dança interna, um movimento silencioso de autodescoberta.

Foi um tempo diferente. Eu era uma pessoa bem diferente. Acreditava que havia tempo para tudo. O mundo era meu, e eu era do mundo.

Dez anos... considero um hiato extenso. Talvez nem seja um hiato; pode-se considerar uma pausa definitiva.

Não posso mais andar solitariamente. O medo costuma me consumir, e as inseguranças parecem mais fortes. Perdi a ilusão de controle pessoal.

Essa sensação de impotência — de ser alguém improdutivo, um ser humano não funcional — é extremamente intensa. Minha invisibilidade perante a vida pesa sobre mim. Estou aqui e, ainda assim, não existo. Sinto que perdi minha capacidade de olhar tudo sob a minha própria ótica. Agora presencio os acontecimentos pela minha janela digital.

Já não sei mais se estou realmente aqui. Talvez eu também não estivesse antes, porém eu tinha o poder de andar. Qual é o meu poder agora?

Entre as coisas de que sinto falta, uma das mais dolorosas é a perda da liberdade. Também sinto saudades do vento salgado das praias e do cheiro de terra úmida dos parques. De sentar em um banco de concreto e observar o universo se mover.

Eu tinha uma percepção diferente da roda da vida, e os conhecimentos que se acumularam desde então me mostram o quanto eu era ingênua. A vida gosta de nos ensinar de maneiras peculiares e, por vezes, agressivas.

Dói viver, dói aprender e dói ainda mais perceber que eu me perdi. Aquela antiga versão de mim não existe mais e nunca mais existirá. Ainda assim, eu não a traria de volta, mesmo que pudesse. É melhor guardar apenas os sabores do passado e suas memórias tocantes. Viver o hoje, por mais difícil que seja, é o ideal.

Vivemos fases. Eu tive as mais diversas fases — todos temos; faz parte da vida e da existência. É natural.

Porém, deixo aqui registrado: até este presente momento, querida Caminhante, de todas as fases, a que mais sinto falta é você.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Notas de março

Março chegou e trouxe suas águas clássicas...

Costuma ser o mês em que faço balanços da minha vida: análises, comparações e pequenas buscas internas. Dito assim, até parece algo interessante. Na prática, porém, é quase como uma tortura silenciosa — observar os muitos planos que tracei e colocá-los diante de quase todos os fracassos.

É complicado. Nunca foi segredo o meu problema em manter as coisas rodando, em sustentar a continuidade dos processos. Planejar e começar sempre foi fácil para mim. O difícil é permanecer. O progresso, quase sempre, tropeça.

Não vou mentir: às vezes perco o interesse em alguns planos. Eu começo cheia de entusiasmo, mas aquele brilho inicial acaba se apagando com o tempo. Talvez esse seja um dos motivos que sabotam a continuidade. Enfim...

Mais uma vez me vejo em rumos diferentes, navegando por mares desconhecidos. Existe algo profundamente amedrontador nesses períodos de mudança. Sinto-me exposta demais, como se estivesse à deriva por um instante. Mas acho que está tudo bem.

Às vezes penso nas convicções que eu tinha alguns anos atrás. Eu tinha absoluta certeza de que chegaria aos 30 sabendo exatamente o que queria, com todos os meus problemas resolvidos e os caminhos bem definidos. Que bobinha eu era.

Aqui estou eu, ainda vivendo em meio a um certo caos — cheio de aventuras, mudanças e incertezas. Já tive muito medo desse caminho. Ainda tenho, às vezes. Mas, de algum modo, volto sempre à mesma conclusão: talvez esteja tudo bem.

Gosto desses meus textos aleatórios, em que o único propósito é deixar palavras escaparem sobre coisas pessoais. Daqui a algum tempo vou reler tudo isso e lembrar deste dia.

E mesmo que ele seja caótico, cheio de medos e inseguranças, existe algo que permanece verdadeiro: eu ainda estou aqui, tentando fazer tudo dar certo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Controle: ordem, medo e poder

Venho me fixando no tema do controle há algum tempo. Li, pesquisei e observei mais do que pretendia. O assunto não se esgotou — se acumulou. Em algum ponto, escrever deixou de ser escolha e virou necessidade.

Este texto nasce desse excesso. Não busca respostas definitivas nem conforto. É uma elaboração pessoal, construída a partir de leitura, pesquisa e confronto.

O conteúdo é extenso e foi dividido em quatro partes. Cada uma toca o controle por um ângulo diferente, mas todas orbitam a mesma pergunta: até onde o controle sustenta — e a partir de quando ele destrói?

Parte 1 – Introdução ao conceito de controle

Controlar não é um ato simples. O controle se espalha por múltiplos significados e aplicações, mas aqui não me interessa a definição neutra ou técnica. Falo do controle como domínio, ordenação, administração e vigilância. Falo do impulso de direcionar e monitorar tudo aquilo que ameaça sair do eixo.

Antes de avançar, é necessário um aviso: meu entendimento é limitado. Este texto não se pretende verdade absoluta. Ele carrega meu olhar, minhas leituras e minhas feridas. É um recorte pessoal.

Recentemente, assisti a um vídeo curto — desses que aparecem e desaparecem sem deixar rastros. Não lembro a plataforma, perdi o conteúdo, mas não perdi o impacto. Falava sobre o controle exercido dentro de um espaço específico: a casa, o trabalho, o território. Falava sobre como pessoas obcecadas por ordem encontram autorregulação ao controlar o ambiente. Como o externo organizado anestesia o caos interno.

Dentro das minhas crenças, o controle é a matéria-prima do poder. Poder é a quantidade de controle que alguém consegue exercer sobre pessoas, corpos, rotinas ou ambientes. Onde há controle, há submissão. As pessoas obedecem não apenas por medo, mas pela promessa implícita de proteção, vantagem ou salvação. A regra vira abrigo.

Passei dias lendo sobre controle, autocontrole e sobre ser controlado. Não para buscar respostas definitivas, mas para escavar ideias e confrontar princípios que eu mesma sustentava sem questionar.

Controle é domínio. Quem controla, monitora, administra e direciona. Esse conjunto abre um campo vasto — e perigoso.

Sempre vi o controle como algo essencialmente nocivo. Hoje reconheço algo desconfortável: todos nós controlamos. Em doses mínimas, o controle sustenta a vida. Controlamos finanças para não afundar em dívidas. Controlamos a vida profissional para não cair no caos. O problema começa quando o controle deixa de ser ferramenta e passa a ser identidade. Quando tudo precisa estar sob vigilância. Quando qualquer desvio é vivido como ameaça.

Parte 2 – Perfil controlador e necessidade de controle

Dar conta de si já é um desafio. Ainda assim, algumas pessoas avançam além: passam a administrar vidas alheias, decisões externas, ambientes que não lhes pertencem. Retiram escolhas, anulam opiniões. Chamam isso de cuidado, zelo ou responsabilidade.

É aqui que nasce o perfil controlador.

Esse perfil atravessa transtornos, contextos e histórias. Ele não surge do nada. Costuma ser moldado por crises, perdas, instabilidade e experiências onde o imprevisível causou dor demais. O resultado é uma crença rígida: tudo precisa estar sob controle para que seja seguro.

Da vigilância constante nasce a obsessão pelo monitoramento. Controlar o ambiente gera uma falsa autorregulação. Tudo parece organizado, limpo, preparado para o pior. O mundo externo vira uma barricada contra o colapso interno.

Esse padrão se repete. Rigidez extrema. Dificuldade de adaptação. Isolamento social. Incapacidade de delegar e confiar. O outro é sempre visto como incompetente, irresponsável ou desorganizado. Há baixa tolerância ao estresse, explosões emocionais, esgotamento constante e frustração quando a realidade ousa sair do script.

Quando o controle alcança pessoas e não apenas objetos ou rotinas, a violência emocional se intensifica. O ambiente controlado adoece. Quem vive sob esse domínio sente opressão contínua, medo constante e tensão permanente. Qualquer imprevisto ativa reações intensas, desproporcionais, desestabilizadoras. O espaço deixa de ser seguro e passa a ser um campo minado.

Ainda assim, o controlador nem sempre parece um tirano em todas as áreas da vida. Às vezes, o controle se concentra em um único eixo. O trabalho, por exemplo. A pessoa vive para a carreira, exige excelência obsessiva, planeja cada passo, não admite falhas. Fora disso, leva uma vida pessoal vazia, morna, sem risco ou entrega. O controle consome tudo — e ainda assim nunca é suficiente.

Parte 3 – Perda de controle

O controlado costuma ser visto como a maior vítima. E muitas vezes é. Mas o controlador também sangra. Sofre sob o peso do próprio comportamento e, principalmente, sob o constante terror de perder o controle.

Artigos clínicos exploram esse medo em pessoas com transtornos como Transtorno do Pânico, TOC, Ansiedade Social e TEPT. O ponto em comum não é o diagnóstico, mas o pavor do colapso.

O medo não é apenas do caos externo. É da própria mente.

As pessoas temem perder:

  • O controle das emoções, acreditando que sentir “demais” é enlouquecer.

  • O controle dos pensamentos, sobretudo os intrusivos, agressivos ou sexuais.

  • O controle do comportamento, com medo de agir impulsivamente ou cometer algo irreversível.

  • O controle do corpo, das sensações físicas que parecem anunciar a morte ou a perda da sanidade.

  • O controle da mente como um todo — o medo de quebrar, de nunca mais voltar.

O ponto mais perturbador é este: na maioria das vezes, o controle não se perde de fato. O que acontece são decisões ruins, emoções intensas e experiências esmagadoras. Depois, tudo isso é rotulado como “perda de controle”. A narrativa é construída para justificar o medo.

O medo do descontrole é comum, clinicamente relevante e atravessa transtornos diferentes. Ignorá-lo é um erro. Encará-lo diretamente pode reduzir sintomas, atravessar diagnósticos e tornar a terapia mais eficaz.

Parte 4 – O tratamento

Conviver com alguém que flerta com a manipulação e a tirania é uma guerra silenciosa. O tratamento é necessário — sobretudo para quem controla, mas também para quem é controlado.

O controlado, quando submetido por longos períodos a ambientes abusivos, pode desenvolver feridas profundas. A validação pessoal é corroída. A capacidade de escolha enfraquece. A própria opinião passa a ser questionada. Tratar essas marcas não é luxo, é sobrevivência.

O perfil controlador é mais difícil de alcançar. O primeiro obstáculo é o reconhecimento. Poucos se enxergam como controladores. Quase todos justificam seus atos como necessários, racionais ou protetivos.

Autores e estudos convergem em um ponto: sem autoconhecimento, não há tratamento. E sem tratar a raiz do problema, o controle apenas muda de endereço. Sai de uma área e invade outra.

Depois de pesquisar, refletir e escrever, fica uma constatação incômoda: maturidade é aceitar que nem tudo pode ser controlado. A tentativa incessante de vigiar, ordenar e antecipar cada detalhe transforma a vida em um campo de exaustão constante. Existem eventos que fogem ao domínio. O imprevisto é inevitável. Isso não é falha — é a condição da existência.

Viver é, também, suportar o que não se controla. Referencias:

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A festa continua sem mim

O Carnaval nasceu como um acordo temporário com o caos. Máscaras, fantasias, anonimato. Um intervalo autorizado para a vulgaridade, para o excesso, para tudo aquilo que a rotina reprime. Durante alguns dias, as regras enfraqueciam e as pessoas respiravam por frestas.

Hoje, quase não há frestas. Já não é preciso se esconder. O Carnaval virou vitrine. Expor é a regra. Quanto mais se mostra, mais se existe. Mais barulho, mais pele, mais excesso. Quem não acompanha o ritmo fica de fora. Quem não aparece, some.

Houve um tempo em que eu pertenci a isso. Entrei no delírio com facilidade. Brilhos, glitter, cores saturadas, corpos suados, afetos rápidos. Dias em que o calor derretia a maquiagem e ninguém se importava. A ideia era simples: esquecer. Funcionar apesar de tudo. Ser feliz enquanto desse.

Agora estou em casa. Tomo banhos repetidos para tentar baixar a temperatura do corpo. O calor continua. Assisto aos blocos pela internet, como quem observa uma espécie diferente. Parte de mim quer voltar. Outra parte sabe que não pode.

Fui forçada a mudar.

Desenvolver um transtorno neurológico na fase mais instável da minha vida redesenhou tudo. Não houve escolha. Não houve adaptação lenta. Houve ruptura. Eu não queria estar aqui. Muito menos chorando por um Carnaval que meu corpo não sustenta mais.

O que eu queria?
O que ainda quero?

Quero controle. Não do mundo — de mim. Quero ser responsável pela minha filha sem medo de falhar. Quero trabalho, renda, previsibilidade. Quero não depender quando tudo apaga. Quero atravessar a rua sozinha sem calcular riscos invisíveis. Quero viver como antes, mas sem ilusões. Com limites claros. Com menos arrogância sobre o próprio corpo.

Damos valor às coisas quando as perdemos. É uma frase gasta. Ainda assim, verdadeira. Perdi a liberdade e só então entendi o tamanho dela. Eu saía com minha filha, com amigos, sozinha. Sentava em bares decadentes, bebia cerveja barata, ouvia qualquer banda de rock alternativo. Caminhava pela cidade, pelo parque, pela universidade. O mundo era acessível. Meu corpo respondia.

Eu era como o Carnaval atual: aberta, visível, excessiva. Comprava maquiagens demais, gastava horas diante do espelho, economizava para roupas novas. Planejava o futuro. Estudava. Trabalhava. Insistia na independência. Eu me movia. Eu brilhava.

Hoje, observo. A alegria dos outros passa pela tela. O medo me mantém dentro de casa. A culpa pesa por limitar a infância da minha filha e por depender do dinheiro da minha mãe. Os remédios que me mantêm funcional são os mesmos que mancham minha pele e me fazem dormir dez horas por dia.

Não existe cura. Existe espera. Exames. Ajustes de dosagem. Expectativas mal colocadas. Não há garantias. Posso estar aqui agora e, de repente, não estar mais. A memória falha. O corpo cai. Pessoas assistem a uma convulsão como quem presencia um evento. É meu estado mais frágil. Meu eu mais exposto. Depois, eu acordo sem saber o que perdi.

Este texto não nasceu para isso. Tinha outra intenção. Mas a escrita não pede permissão. Ela escava. Eu deixo. A dor encontra palavras antes que eu consiga impedir.

Talvez um dia eu recupere parte do que fui.
Hoje, o Carnaval acontece lá fora.
Eu tomo outro banho, visto um pijama
e durmo enquanto o mundo continua.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Arquivos pessoais

Meus arquivos de textos dizem muito sobre mim, e não consigo definir se isso é algo bom ou ruim.
Acredito piamente na ideia de que o autoconhecimento é um dos caminhos mais eficazes para a cura de feridas internas. Seguindo essa lógica, passei algumas horas vasculhando meu acervo de escritos, voltando-me especialmente aos mais antigos — arquivos que existem desde antes mesmo deste blog.

A evolução é curiosa e interessante. Ela revela tantas versões de uma mesma pessoa, ou até de uma mesma situação. A forma como eu lidava com o caos há alguns anos é bem diferente de hoje. Em certa medida, sinto orgulho disso, embora ainda reconheça que há muito a melhorar.

Revisitar o passado em seu estado mais cru — e perceber como os sentimentos se manifestavam de outra forma, com entonações muito mais vibrantes — é uma experiência intensa. Há textos que hoje me causam certa vergonha, mas sei que, naquele momento, senti tudo aquilo de forma genuína. Talvez nem seja preciso ir tão longe: neste próprio blog é possível enxergar partes de mim que ficaram devastadas por acontecimentos e que, antes de me acalmar e enxergar outras soluções, se expressaram em tons viscerais.

Escrever sempre me ajudou a clarear a mente. Traz-me paz interior e uma forte sensação de controle emocional. Talvez seja por isso que meus diários pessoais sejam tão expositivos.

Apesar de continuar escrevendo em diários, também passei a dar espaço para outros tipos de escrita. Há momentos em que me atraio por determinado assunto e sinto uma necessidade quase urgente de ler tudo sobre ele, para depois dissecar minhas opiniões em textos extensos. Descobri que isso é um ótimo passatempo. Também descobri quanto adoro criar mundos, para posteriormente descrevê-los em histórias e contos.

A escrita e literatura são parte da minha existência e parte do meu universo particular. 

Ler a pessoa que eu fui me trouxe novas perspectivas sobre mim mesma, sobre minha progressão emocional e sobre o que ainda preciso mudar. Sinto alívio ao compreender melhor meu próprio processo de desenvolvimento e felicidade ao perceber que, finalmente, estou conseguindo seguir algum caminho.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Hilda

Assisti Hilda com a minha filha. Pensei que seria apenas mais uma animação infantil. Estava enganada.

Inspirada nos romances gráficos de Luke Pearson, a série é uma animação infantil dividida em três temporadas, que acompanha a história de uma garota de cabelos azuis. Hilda é firme em seus valores, protege quem ama e se lança ao desconhecido com uma naturalidade admirável, sempre acompanhada de seu corça-raposa, Twig. No início, vive com a mãe, Johanna, em uma casa isolada entre florestas e montanhas. Ali, a convivência com criaturas mágicas é parte da rotina, assim como os passeios e a relação profunda com a natureza. Quando acontecimentos fora de seu controle as obrigam a deixar a floresta e ir para a cidade grande, a narrativa ganha outra dimensão. É nesse deslocamento que a história se expande. Bastaram dois episódios para que eu me envolvesse completamente com a trama — e não foi um envolvimento passageiro.

A série é sensível e inteligente na medida certa. Consegue dialogar com o público infantil sem afastar o adulto. O mundo apresentado é moderno, com escolas, eletricidade e transporte, mas a magia não é escondida; ela existe ao lado do cotidiano comum. Essa convivência entre o fantástico e o urbano sustenta temas como crescimento, adaptação e pertencimento. Existe um conflito constante entre o que é natural e o que é urbano, entre o que é aceito e o que é temido. Nada soa forçado. A história se constrói com calma e consistência.

Identifiquei-me com vários personagens. No amigo desastrado que precisa enfrentar seus medos mais profundos. Na amiga estudiosa que tenta organizar o caos com lógica e soluções. Na mãe solo que busca oferecer o melhor à filha dentro das próprias limitações. Também me apeguei a personagens que aparecem menos, mas deixam marcas — o homenzinho de madeira, o elfo minúsculo, o grande corvo. Quase todos possuem algum tipo de desenvolvimento, e isso fortalece a narrativa. Hilda cresce ao longo das temporadas. Aprende, erra, insiste, amadurece. Essa evolução é visível e verdadeira.

Um dos pontos mais fortes da série está na forma como aborda temas sociais e éticos por meio de metáforas bem construídas. As criaturas mágicas representam o diferente, o desconhecido, aquilo que causa estranhamento. Em diversos momentos, o preconceito e a intolerância aparecem como reflexo do medo e da falta de diálogo. A série sugere, de maneira delicada, que a convivência só é possível quando há empatia. Hilda assume o papel de ponte entre os mundos humano e mágico, mostrando que a coexistência depende de respeito e escuta. Esse aspecto torna a animação não apenas bonita, mas relevante.

Os efeitos visuais e sonoros contribuem significativamente para a experiência. A estética remete a um estilo que lembra os anos 90, com cores em tons pastéis, texturas que evocam aquarela e traços simples, porém expressivos. As paisagens naturais são especialmente marcantes. Há um cuidado evidente na construção do ambiente. A trilha sonora complementa esse universo com melodias que transitam entre o melancólico e o misterioso. Em alguns momentos, fechei os olhos apenas para absorver o som. A combinação entre imagem e música cria uma atmosfera envolvente e emocional.

O ritmo pode parecer mais lento para quem está habituado a animações mais dinâmicas. Em alguns episódios, minha filha demonstrou certo tédio. Ainda assim, essa escolha narrativa privilegia o clima e o desenvolvimento das relações em vez da ação constante. A série opta por construir sensações e reflexões com paciência.

Os episódios têm, em média, 20 minutos, enquanto os finais de temporada se estendem um pouco mais. Embora cada temporada apresente sua própria estrutura, há continuidade entre elas. Recomendo assistir em ordem para acompanhar a evolução dos personagens e compreender melhor os conflitos.

A primeira temporada é mais leve e mais infantil. Não possui um tema central muito definido, e os episódios concentram-se nas experiências individuais de Hilda. Mesmo com histórias mais independentes, há referências que criam unidade e dão sensação de progressão.

A segunda temporada aprofunda os conflitos e apresenta um eixo temático mais claro, centrado no preconceito contra os trolls. Os episódios tornam-se mais conectados entre si, e os dilemas — especialmente os relacionados à relação entre mãe e filha — ganham mais complexidade. O episódio final, apresentado como filme, Hilda e o Rei da Montanha, encerra esse arco. Considero-o interessante, embora um pouco arrastado. Funciona melhor como conclusão da temporada do que como obra isolada.

A terceira e última temporada é, para mim, a mais impactante. Combina episódios com atmosfera mais misteriosa a outros com maior tensão narrativa. A maioria dos capítulos é interligada, o que exige atenção à sequência. A temática envolve fadas, identidade e passado. Descobrimos mais sobre Johanna, o que amplia significativamente a compreensão da história. Há maior densidade emocional, e a trilha sonora e os efeitos visuais atingem seu ponto mais forte. O episódio final foi particularmente marcante. Assisti com um nó na garganta e, ao terminar, precisei de alguns minutos para me recompor.

Essa é minha perspectiva sobre a série. Apesar de alguns momentos mais lentos, o conjunto é consistente e emocionalmente potente. Recomendo especialmente a quem aprecia atmosferas mágicas, narrativas que valorizam o crescimento dos personagens e histórias que abordam diferenças e convivência de forma sensível. É uma obra que combina delicadeza estética com profundidade temática. Tornou-se, sem exagero, uma das minhas favoritas da plataforma.

Uma das minhas frases favoritas da série, dita na terceira temporada, Capítulo 6: O Lago Esquecido (a propósito, um dos meus episódios favoritos):

“Eu sou de uma época em que as criaturas não precisavam ser tão claramente uma coisa ou outra. Eu não tenho uma palavra para o que eu sou. Eu apenas sou.”

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Limonada salgada

Você já ouviu a história da Limonada Salgada?
Essa parábola, que circula há anos nas redes sociais, é frequentemente apresentada como um experimento psicológico, embora não seja um estudo científico comprovado nos moldes acadêmicos. Ainda assim, sua força não está na metodologia, mas no que ela revela simbolicamente sobre educação, gênero e comportamento social.

A história é simples: duas turmas de crianças recebem limonada feita com sal. Um grupo é composto apenas por meninos; o outro, apenas por meninas. Depois de beberem, as reações são observadas. Os meninos reclamam quase de imediato, demonstram incômodo, dizem que a bebida está ruim e deixam claro que não querem repetir a experiência. As meninas, por outro lado, hesitam. Muitas dizem que gostaram, mesmo sendo evidente que a limonada está intragável. Quando questionadas, explicam que não queriam parecer rudes ou magoar quem ofereceu o suco.

Essa história costuma ser usada para ilustrar como normas sociais de gênero moldam comportamentos desde cedo. E embora ela não represente a experiência de todas as meninas — afinal, gênero, classe, raça, cultura, território e estrutura familiar atravessam essa vivência de formas muito distintas —, ela toca em um ponto sensível e recorrente: a expectativa de que meninas aprendam a se conter, a agradar e a silenciar desconfortos.

Homens, em geral, são educados para expressar vontades, correr riscos e ocupar espaço. Mulheres, por sua vez, são incentivadas a serem “boas”, conciliadoras e emocionalmente responsáveis pelo ambiente ao redor, mesmo quando isso implica ignorar o próprio mal-estar. Essa diferença de socialização não nasce do acaso, nem da intenção consciente de machucar; ela é parte de uma estrutura social que se reproduz geração após geração.

A questão que me inquieta não é afirmar uma relação direta e automática entre infância e vida adulta, como se tudo fosse causa e efeito. A realidade é muito mais complexa. Mas vale a pergunta: será que esse treino precoce para dissimular desconfortos — para sorrir diante da limonada salgada — pode ser um dos muitos fatores que, mais tarde, dificulta dizer “não” em situações mais graves? Em relacionamentos abusivos, ambientes de trabalho tóxicos ou dinâmicas em que o limite pessoal é constantemente violado?

Mencionei em outros textos que tenho uma filha. Criar um ser humano é um exercício permanente de responsabilidade e dúvida. Envolve proteger, acolher, sustentar, ensinar — e, principalmente, servir de espelho. No meu caso, faço isso sendo mãe solo. Tenho receios reais sobre a educação que ofereço, porque não desejo perpetuar o ciclo da mulher que suporta injustiças em silêncio, sejam elas de gênero, classe ou econômicas.

Refletir sobre a história da limonada salgada me fez olhar para mim mesma. Percebi que, muitas vezes de forma irrefletida, acabo reproduzindo padrões antigos: minimizar sentimentos, incentivar o “não foi nada”, valorizar o bom comportamento acima da honestidade emocional. Nenhuma mãe deseja que sua filha aceite situações degradantes, mas reconhecer como isso começa em gestos pequenos é um passo necessário para promover mudanças reais.

Também é quase óbvio que fui criada para não questionar e para não expressar “sentimentos ruins”. E isso não foi culpa da minha mãe; ela também foi formada dentro dessa lógica. Trata-se de uma corrente social longa, profunda e estrutural. Felizmente, há sinais de ruptura. Ainda existe resistência — muitas vezes inconsciente — justamente porque esses padrões são tão naturalizados que se tornam difíceis de enxergar.

Os ensinamentos transmitidos na infância moldam valores, limites e crenças. A parábola da limonada salgada ilustra como, desde cedo, meninas aprendem que manter o ambiente agradável pode ser mais importante do que reconhecer suas próprias necessidades. Mas a mudança não pode recair apenas sobre elas.

Criar meninas fortes significa ensiná-las que seus sentimentos são válidos, que desconforto merece atenção e que estabelecer limites não é falta de educação. Significa permitir que digam “não gostei”, “isso me incomodou”, “não quero”. Ao mesmo tempo, criar meninos empáticos é ensiná-los a ouvir, a respeitar limites, a compreender que suas vontades não são as únicas que importam e que consentimento não é negociação, é princípio.

Conversas simples fazem diferença: perguntar o que a criança sentiu de verdade, validar emoções sem corrigi-las, explicar que ninguém é obrigado a agradar para ser aceito. São nesses momentos cotidianos que se constrói uma base emocional mais justa.

Toda essa reflexão nasceu de uma história simples e quase banal. Ainda assim, ela me levou a questionar os limites que estabeleço para mim mesma e a forma como conduzo a formação da minha filha. Se esse texto provocar ao menos um incômodo semelhante em quem lê, ele já cumpriu seu papel.

E deixo, para finalizar, a pergunta que permanece ecoando desde a primeira vez que ouvi essa parábola:

Quantas limonadas salgadas você já tomou?

Referências:

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Estética como ferramenta da autoestima

 Autoestima - sub. feminino.
Qualidade de quem se valoriza, está satisfeito com seu modo de ser, com sua forma de pensar ou com sua aparência física, expressando confiança em suas ações e opiniões.


Quando penso em um assunto específico, costumo fragmentá-lo. Desmonto ideias, observo cada parte, tento compreender os pedaços antes de formar um todo. Com os padrões estéticos não foi diferente. Passei dias refletindo até que, por fim, decidi colocar minhas hipóteses em palavras.

Fui tola. As horas se passaram até eu conseguir esboçar um rascunho que considerasse honesto o bastante. Travar ao escrever é comum, mas este tema toca feridas específicas — e talvez por isso nada que me parecesse justo ou verdadeiro conseguisse sair.

Por muitos anos, minha referência de autoestima foi medida pela régua da estética. Uma régua rígida, imprecisa e cruel. Algo que atravessou minha vida de maneiras que, por muito tempo, fui incapaz de compreender completamente.

O valor pessoal e o valor social caminham juntos de forma perigosa. Aprende-se cedo que, para ser aceita, é preciso caber. Caber em expectativas, em padrões, em imagens pré-fabricadas. E sobre o corpo feminino recaem as cobranças mais severas. Ser bela, para uma mulher, não é apenas um atributo — pode definir status, pertencimento e até dignidade.

Cresci em uma fase da sociedade em que a beleza era sinônimo de magreza extrema. Ossos à mostra, ausência total de gordura ou músculos. Magra. Apenas magra. Não havia alternativa.

Imagine ser uma garota nos anos 2000 e 2010. Revistas repletas de dietas milagrosas, relatos de emagrecimentos “bem-sucedidos”, receitas de sucos detox, indicações de remédios e fotos — muitas fotos — de modelos extremamente magras. Essa era a regra. E a balança que indicava se estávamos no caminho certo não era apenas a do banheiro, mas os elogios e as críticas alheias.

O desvio desse trilho era rápido e silencioso. Aos problemas de imagem somavam-se compulsões, transtornos alimentares, ansiedade, depressão e decisões desesperadas em nome de um desejo que nunca se satisfazia.

Hoje, os padrões continuam existindo, mas vestem outras roupas. Estão ligados a procedimentos estéticos, à cultura da academia e a coaches — muitas vezes sem qualquer formação — que opinam sobre treinos e dietas como se fossem verdades absolutas. Espalhou-se, então, a ideia de que parecer saudável é o novo ideal de beleza.

Não concordo. Ser saudável é importante, mas não da forma como isso é vendido. A sensação é que não se busca saúde, mas aparência. Sempre houve um padrão moldado ao seu tempo, e sempre haverá. São mecanismos de controle, formas sutis — e eficazes — de manipulação.

Nunca me adequei a esses padrões. Não por escolha estética ou desejo de ser diferente, mas porque simplesmente não consegui. Na adolescência, foi torturante ocupar o papel da “gordinha”. Passei dias sem comer, tentando emagrecer a qualquer custo, enquanto me comparava às garotas consideradas bonitas. Alguém precisava ser feia para que outra pudesse ser bela — e esse lugar era meu.

Não sei exatamente em que momento abandonei o autocuidado. Talvez ele tenha se perdido quando a depressão me tomou por inteiro. Ainda assim, preciso admitir: a estética continua tendo um peso considerável na régua da minha autoestima.

Com o tempo, o amadurecimento me trouxe alguma clareza sobre o que é belo e sobre quem — ou o que — devo ser. Hoje entendo que essa adequação insana aos padrões de beleza não consome apenas a saúde física e mental, mas também destrói valores pessoais, tritura identidades e sustenta uma autoestima instável, sempre à beira do colapso.

Quando me olho no espelho, enxergo defeitos. Gorda. Estrias, consequência de uma gravidez. Seios caídos pela amamentação. Celulites, unhas roídas, cabelo desalinhado, tatuagens à mostra, cicatrizes de acne. Tento não me fixar apenas nisso, mas depois de tanto tempo acreditando que precisava ser perfeita, ainda tenho dificuldade de enxergar o que há de bom.

Não sei se este texto diz exatamente tudo o que eu gostaria de dizer. Muito ficou de fora. Talvez eu não consiga — ou não queira — dissecar ainda mais esse assunto. Resta apenas uma pergunta, que insiste em permanecer:

o que acontece quando a aparência muda, mas a autoestima não aprende a mudar junto?