terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Estética como ferramenta da autoestima

 Autoestima - sub. feminino.
Qualidade de quem se valoriza, está satisfeito com seu modo de ser, com sua forma de pensar ou com sua aparência física, expressando confiança em suas ações e opiniões.


Quando penso em um assunto específico, costumo fragmentá-lo. Desmonto ideias, observo cada parte, tento compreender os pedaços antes de formar um todo. Com os padrões estéticos não foi diferente. Passei dias refletindo até que, por fim, decidi colocar minhas hipóteses em palavras.

Fui tola. As horas se passaram até eu conseguir esboçar um rascunho que considerasse honesto o bastante. Travar ao escrever é comum, mas este tema toca feridas específicas — e talvez por isso nada que me parecesse justo ou verdadeiro conseguisse sair.

Por muitos anos, minha referência de autoestima foi medida pela régua da estética. Uma régua rígida, imprecisa e cruel. Algo que atravessou minha vida de maneiras que, por muito tempo, fui incapaz de compreender completamente.

O valor pessoal e o valor social caminham juntos de forma perigosa. Aprende-se cedo que, para ser aceita, é preciso caber. Caber em expectativas, em padrões, em imagens pré-fabricadas. E sobre o corpo feminino recaem as cobranças mais severas. Ser bela, para uma mulher, não é apenas um atributo — pode definir status, pertencimento e até dignidade.

Cresci em uma fase da sociedade em que a beleza era sinônimo de magreza extrema. Ossos à mostra, ausência total de gordura ou músculos. Magra. Apenas magra. Não havia alternativa.

Imagine ser uma garota nos anos 2000 e 2010. Revistas repletas de dietas milagrosas, relatos de emagrecimentos “bem-sucedidos”, receitas de sucos detox, indicações de remédios e fotos — muitas fotos — de modelos extremamente magras. Essa era a regra. E a balança que indicava se estávamos no caminho certo não era apenas a do banheiro, mas os elogios e as críticas alheias.

O desvio desse trilho era rápido e silencioso. Aos problemas de imagem somavam-se compulsões, transtornos alimentares, ansiedade, depressão e decisões desesperadas em nome de um desejo que nunca se satisfazia.

Hoje, os padrões continuam existindo, mas vestem outras roupas. Estão ligados a procedimentos estéticos, à cultura da academia e a coaches — muitas vezes sem qualquer formação — que opinam sobre treinos e dietas como se fossem verdades absolutas. Espalhou-se, então, a ideia de que parecer saudável é o novo ideal de beleza.

Não concordo. Ser saudável é importante, mas não da forma como isso é vendido. A sensação é que não se busca saúde, mas aparência. Sempre houve um padrão moldado ao seu tempo, e sempre haverá. São mecanismos de controle, formas sutis — e eficazes — de manipulação.

Nunca me adequei a esses padrões. Não por escolha estética ou desejo de ser diferente, mas porque simplesmente não consegui. Na adolescência, foi torturante ocupar o papel da “gordinha”. Passei dias sem comer, tentando emagrecer a qualquer custo, enquanto me comparava às garotas consideradas bonitas. Alguém precisava ser feia para que outra pudesse ser bela — e esse lugar era meu.

Não sei exatamente em que momento abandonei o autocuidado. Talvez ele tenha se perdido quando a depressão me tomou por inteiro. Ainda assim, preciso admitir: a estética continua tendo um peso considerável na régua da minha autoestima.

Com o tempo, o amadurecimento me trouxe alguma clareza sobre o que é belo e sobre quem — ou o que — devo ser. Hoje entendo que essa adequação insana aos padrões de beleza não consome apenas a saúde física e mental, mas também destrói valores pessoais, tritura identidades e sustenta uma autoestima instável, sempre à beira do colapso.

Quando me olho no espelho, enxergo defeitos. Gorda. Estrias, consequência de uma gravidez. Seios caídos pela amamentação. Celulites, unhas roídas, cabelo desalinhado, tatuagens à mostra, cicatrizes de acne. Tento não me fixar apenas nisso, mas depois de tanto tempo acreditando que precisava ser perfeita, ainda tenho dificuldade de enxergar o que há de bom.

Não sei se este texto diz exatamente tudo o que eu gostaria de dizer. Muito ficou de fora. Talvez eu não consiga — ou não queira — dissecar ainda mais esse assunto. Resta apenas uma pergunta, que insiste em permanecer:

o que acontece quando a aparência muda, mas a autoestima não aprende a mudar junto?

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