Seguir a vida, independentemente do fluxo, da intensidade ou do momento. Apenas seguir, mesmo quando tudo em mim pede pausa. Esse tem sido o meu lema.
Março sempre foi o meu mês. Quando meus pensamentos ganham volume, minhas críticas se tornam mais afiadas, meus planos mais frágeis e minha existência, inevitavelmente, entra em questão.
Viver março é cansativo. Às vezes, quase insustentável. Não reclamo da intensidade; há uma estranha honestidade nela. Apenas tento respirar dentro desse turbilhão de emoções.
O meu dia veio, marcou as 31 voltas em torno do sol e partiu como chegou. Sem anúncios, sem rupturas. Nada de novo, apenas a repetição cuidadosa do cotidiano: acordei, levantei, tomei café, tentei organizar o que parecia desalinhado, desperdicei tempo rolando feeds, comi um bolo trazido pela família e, por fim, dormir… Além deles, apenas um único amigo se lembrou de mim.
E, ainda assim, não houve surpresa. Não esperei nada, nem sequer me permiti construir expectativas. Aquela velha ideia: quem não marca presença não faz falta quando se ausenta. Não doeu. O que me desconcertou foi justamente isso: a ausência de dor, a indiferença serena diante do esquecimento.
No fundo, eu não queria comemorar. Queria me recolher. Fazer de mim um casulo, me embrenhar em mim mesma, desaparecer entre cobertas e pensamentos e apenas sumir.
Comemorações são rituais de passagem. São marcos, começos, pequenas celebrações de movimento. Mas eu permaneço presa a um ciclo onde tudo retorna ao mesmo ponto: caos, instabilidade, repetição. Eu não queria comemorar a minha existência.
Isso não significa que desisti de viver. Há uma diferença silenciosa entre as duas coisas. Continuo seguindo. O fluxo oscila e a intensidade por vezes transborda, mas sigo, ainda assim.
Nunca fui de crer em divindades que interferem constantemente no curso da vida. Não tenho uma fé definida; talvez o agnosticismo seja a minha porta. De qualquer forma, não acredito que exista um Deus traça planos específicos e num olhar superior tenha decidido: “este será o caminho mais difícil”. Ainda que carregue o peso da culpa, creio que sou o produto das minhas próprias condutas.
E março, como de costume, me devolve perguntas.
Sei que não fiz as melhores escolhas. Compreendo as consequências, aceito os combates que eu mesma provoquei. Mas há algo que ainda me inquieta: é preciso tanto? Tantas dores, tantos fracassos, tantas perdas? Até quando esse equilíbrio instável, essa vida em corda bamba?
Assim, entre respostas que não vieram e silêncios que permaneceram, encerro mais um ciclo. Fecho o meu mês — o meu março — não com conclusões, mas com a estranha sensação de continuidade.
Sabe aquelas noites em que a insônia insiste em pesar sobre os ombros? Quando os olhos simplesmente se recusam a fechar? Pois bem, essas madrugadas já se tornaram familiares para mim. Com o tempo, aprendi a aceitá-las e até a encontrar certo conforto nesses intervalos de vigília.
Numa dessas ocasiões em que o descanso não quis aparecer, passei a vagar pelos cômodos da casa. Do quarto para a sala, da sala para o banheiro, do banheiro para a cozinha e da cozinha até a varanda. Um percurso repetido tantas vezes que já parecia coreografado, como se fosse parte de um velho repertório.
Quando cheguei à varanda, acomodei-me numa cadeira estofada e deixei a cabeça repousar sobre a mureta. Fiquei ali por algum tempo, observando o céu noturno. As nuvens cobriam tudo, escondendo o luar e deixando no ar aquele pressentimento silencioso de chuva próxima. O quintal permanecia mergulhado na escuridão, enquanto as árvores balançavam lentamente ao compasso do vento. O silêncio era denso, quase sepulcral.
A mesma solidão que, por vezes, me consome é também aquela que me acolhe em noites como essa. Quando os dias se tornam intensos demais, encontro algum alívio em me recolher durante a madrugada, dentro desse espaço silencioso que carrego em mim. É um repouso estranho, mas necessário. Algo que, de certa forma, acalma minha mente cansada.
A casa permanecia apagada, e a única claridade vinha das janelas das residências vizinhas. Não havia muito a fazer além de permanecer ali e permitir que aquele instante existisse.
Era tudo tão quieto, tão sereno. Naquela madrugada, meus pensamentos não gritaram como costumam fazer. Em vez disso, vieram em forma de sussurro, como um convite delicado para olhar o mundo com menos peso. Foi assim que acabei me lembrando das minhas antigas fantasias de infância.
Quando criança, minha imaginação era fértil. Eu gostava de acreditar que os objetos inanimados possuíam algum tipo de vida secreta e que, quando ninguém estava olhando, respiravam, se moviam e até conversavam entre si.
Era uma ingenuidade doce, quase ingênua demais. Ainda assim, enquanto permanecia ali naquela quietude, percebi que talvez houvesse um pequeno fragmento de verdade escondido dentro dessas fantasias. Durante as madrugadas silenciosas, as construções ao redor parecem adquirir uma espécie de alma — algo que não conseguem revelar à luz do dia, mas que se insinua quando tudo repousa. Seus vidros empoeirados, os matos rasteiros no quintal ou as telhas gastas pelo tempo parecem carregar histórias que ninguém escuta.
Talvez seja apenas imaginação… mas encontrei certa magia nas casas ao meu redor. E também percebi algo semelhante na minha própria morada, que um dia foi meu castelo e hoje continua sendo o castelo da minha filha.
Enquanto muitos se entregavam às folias da madrugada, eu vivia algo silencioso, quase secreto. Agradeci, em pensamento, à minha mente por ter me conduzido até a varanda. Entre todas as pequenas experiências noturnas que já tive, aquela certamente foi uma das mais singulares.
Respirei mais uma vez. O ar estava pesado e morno.
Então me levantei e voltei para dentro. Ainda precisava insistir um pouco mais no sono. Mas, naquela noite, a madrugada já tinha me oferecido companhia suficiente.
Antes, quando eu não tinha medo, costumava andar por bairros aleatórios, ruas desconhecidas e me aventurar por caminhos incertos. Era quase como um hobby peculiar: vagar por lugares, conhecer o desconhecido e apreciar as formas ao redor.
Era muito mais que um exercício físico. Era um processo de autoconhecimento, no qual, enquanto eu caminhava e observava a cidade, colocava meus pensamentos em ordem. Uma espécie de dança interna, um movimento silencioso de autodescoberta.
Foi um tempo diferente. Eu era uma pessoa bem diferente. Acreditava que havia tempo para tudo. O mundo era meu, e eu era do mundo.
Dez anos... considero um hiato extenso. Talvez nem seja um hiato; pode-se considerar uma pausa definitiva.
Não posso mais andar solitariamente. O medo costuma me consumir, e as inseguranças parecem mais fortes. Perdi a ilusão de controle pessoal.
Essa sensação de impotência — de ser alguém improdutivo, um ser humano não funcional — é extremamente intensa. Minha invisibilidade perante a vida pesa sobre mim. Estou aqui e, ainda assim, não existo. Sinto que perdi minha capacidade de olhar tudo sob a minha própria ótica. Agora presencio os acontecimentos pela minha janela digital.
Já não sei mais se estou realmente aqui. Talvez eu também não estivesse antes, porém eu tinha o poder de andar. Qual é o meu poder agora?
Entre as coisas de que sinto falta, uma das mais dolorosas é a perda da liberdade. Também sinto saudades do vento salgado das praias e do cheiro de terra úmida dos parques. De sentar em um banco de concreto e observar o universo se mover.
Eu tinha uma percepção diferente da roda da vida, e os conhecimentos que se acumularam desde então me mostram o quanto eu era ingênua. A vida gosta de nos ensinar de maneiras peculiares e, por vezes, agressivas.
Dói viver, dói aprender e dói ainda mais perceber que eu me perdi. Aquela antiga versão de mim não existe mais e nunca mais existirá. Ainda assim, eu não a traria de volta, mesmo que pudesse. É melhor guardar apenas os sabores do passado e suas memórias tocantes. Viver o hoje, por mais difícil que seja, é o ideal.
Vivemos fases. Eu tive as mais diversas fases — todos temos; faz parte da vida e da existência. É natural.
Porém, deixo aqui registrado: até este presente momento, querida Caminhante, de todas as fases, a que mais sinto falta é você.
Costuma ser o mês em que faço balanços da minha vida: análises, comparações e pequenas buscas internas. Dito assim, até parece algo interessante. Na prática, porém, é quase como uma tortura silenciosa — observar os muitos planos que tracei e colocá-los diante de quase todos os fracassos.
É complicado. Nunca foi segredo o meu problema em manter as coisas rodando, em sustentar a continuidade dos processos. Planejar e começar sempre foi fácil para mim. O difícil é permanecer. O progresso, quase sempre, tropeça.
Não vou mentir: às vezes perco o interesse em alguns planos. Eu começo cheia de entusiasmo, mas aquele brilho inicial acaba se apagando com o tempo. Talvez esse seja um dos motivos que sabotam a continuidade. Enfim...
Mais uma vez me vejo em rumos diferentes, navegando por mares desconhecidos. Existe algo profundamente amedrontador nesses períodos de mudança. Sinto-me exposta demais, como se estivesse à deriva por um instante. Mas acho que está tudo bem.
Às vezes penso nas convicções que eu tinha alguns anos atrás. Eu tinha absoluta certeza de que chegaria aos 30 sabendo exatamente o que queria, com todos os meus problemas resolvidos e os caminhos bem definidos. Que bobinha eu era.
Aqui estou eu, ainda vivendo em meio a um certo caos — cheio de aventuras, mudanças e incertezas. Já tive muito medo desse caminho. Ainda tenho, às vezes. Mas, de algum modo, volto sempre à mesma conclusão: talvez esteja tudo bem.
Gosto desses meus textos aleatórios, em que o único propósito é deixar palavras escaparem sobre coisas pessoais. Daqui a algum tempo vou reler tudo isso e lembrar deste dia.
E mesmo que ele seja caótico, cheio de medos e inseguranças, existe algo que permanece verdadeiro: eu ainda estou aqui, tentando fazer tudo dar certo.
Venho me fixando no tema do controle há algum tempo. Li, pesquisei e observei mais do que pretendia. O assunto não se esgotou — se acumulou. Em algum ponto, escrever deixou de ser escolha e virou necessidade.
Este texto nasce desse excesso. Não busca respostas definitivas nem conforto. É uma elaboração pessoal, construída a partir de leitura, pesquisa e confronto.
O conteúdo é extenso e foi dividido em quatro partes. Cada uma toca o controle por um ângulo diferente, mas todas orbitam a mesma pergunta: até onde o controle sustenta — e a partir de quando ele destrói?
Parte 1 – Introdução ao conceito de controle
Controlar não é um ato simples. O controle se espalha por múltiplos significados e aplicações, mas aqui não me interessa a definição neutra ou técnica. Falo do controle como domínio, ordenação, administração e vigilância. Falo do impulso de direcionar e monitorar tudo aquilo que ameaça sair do eixo.
Antes de avançar, é necessário um aviso: meu entendimento é limitado. Este texto não se pretende verdade absoluta. Ele carrega meu olhar, minhas leituras e minhas feridas. É um recorte pessoal.
Recentemente, assisti a um vídeo curto — desses que aparecem e desaparecem sem deixar rastros. Não lembro a plataforma, perdi o conteúdo, mas não perdi o impacto. Falava sobre o controle exercido dentro de um espaço específico: a casa, o trabalho, o território. Falava sobre como pessoas obcecadas por ordem encontram autorregulação ao controlar o ambiente. Como o externo organizado anestesia o caos interno.
Dentro das minhas crenças, o controle é a matéria-prima do poder. Poder é a quantidade de controle que alguém consegue exercer sobre pessoas, corpos, rotinas ou ambientes. Onde há controle, há submissão. As pessoas obedecem não apenas por medo, mas pela promessa implícita de proteção, vantagem ou salvação. A regra vira abrigo.
Passei dias lendo sobre controle, autocontrole e sobre ser controlado. Não para buscar respostas definitivas, mas para escavar ideias e confrontar princípios que eu mesma sustentava sem questionar.
Controle é domínio. Quem controla, monitora, administra e direciona. Esse conjunto abre um campo vasto — e perigoso.
Sempre vi o controle como algo essencialmente nocivo. Hoje reconheço algo desconfortável: todos nós controlamos. Em doses mínimas, o controle sustenta a vida. Controlamos finanças para não afundar em dívidas. Controlamos a vida profissional para não cair no caos. O problema começa quando o controle deixa de ser ferramenta e passa a ser identidade. Quando tudo precisa estar sob vigilância. Quando qualquer desvio é vivido como ameaça.
Parte 2 – Perfil controlador e necessidade de controle
Dar conta de si já é um desafio. Ainda assim, algumas pessoas avançam além: passam a administrar vidas alheias, decisões externas, ambientes que não lhes pertencem. Retiram escolhas, anulam opiniões. Chamam isso de cuidado, zelo ou responsabilidade.
É aqui que nasce o perfil controlador.
Esse perfil atravessa transtornos, contextos e histórias. Ele não surge do nada. Costuma ser moldado por crises, perdas, instabilidade e experiências onde o imprevisível causou dor demais. O resultado é uma crença rígida: tudo precisa estar sob controle para que seja seguro.
Da vigilância constante nasce a obsessão pelo monitoramento. Controlar o ambiente gera uma falsa autorregulação. Tudo parece organizado, limpo, preparado para o pior. O mundo externo vira uma barricada contra o colapso interno.
Esse padrão se repete. Rigidez extrema. Dificuldade de adaptação. Isolamento social. Incapacidade de delegar e confiar. O outro é sempre visto como incompetente, irresponsável ou desorganizado. Há baixa tolerância ao estresse, explosões emocionais, esgotamento constante e frustração quando a realidade ousa sair do script.
Quando o controle alcança pessoas e não apenas objetos ou rotinas, a violência emocional se intensifica. O ambiente controlado adoece. Quem vive sob esse domínio sente opressão contínua, medo constante e tensão permanente. Qualquer imprevisto ativa reações intensas, desproporcionais, desestabilizadoras. O espaço deixa de ser seguro e passa a ser um campo minado.
Ainda assim, o controlador nem sempre parece um tirano em todas as áreas da vida. Às vezes, o controle se concentra em um único eixo. O trabalho, por exemplo. A pessoa vive para a carreira, exige excelência obsessiva, planeja cada passo, não admite falhas. Fora disso, leva uma vida pessoal vazia, morna, sem risco ou entrega. O controle consome tudo — e ainda assim nunca é suficiente.
Parte 3 – Perda de controle
O controlado costuma ser visto como a maior vítima. E muitas vezes é. Mas o controlador também sangra. Sofre sob o peso do próprio comportamento e, principalmente, sob o constante terror de perder o controle.
Artigos clínicos exploram esse medo em pessoas com transtornos como Transtorno do Pânico, TOC, Ansiedade Social e TEPT. O ponto em comum não é o diagnóstico, mas o pavor do colapso.
O medo não é apenas do caos externo. É da própria mente.
As pessoas temem perder:
O controle das emoções, acreditando que sentir “demais” é enlouquecer.
O controle dos pensamentos, sobretudo os intrusivos, agressivos ou sexuais.
O controle do comportamento, com medo de agir impulsivamente ou cometer algo irreversível.
O controle do corpo, das sensações físicas que parecem anunciar a morte ou a perda da sanidade.
O controle da mente como um todo — o medo de quebrar, de nunca mais voltar.
O ponto mais perturbador é este: na maioria das vezes, o controle não se perde de fato. O que acontece são decisões ruins, emoções intensas e experiências esmagadoras. Depois, tudo isso é rotulado como “perda de controle”. A narrativa é construída para justificar o medo.
O medo do descontrole é comum, clinicamente relevante e atravessa transtornos diferentes. Ignorá-lo é um erro. Encará-lo diretamente pode reduzir sintomas, atravessar diagnósticos e tornar a terapia mais eficaz.
Parte 4 – O tratamento
Conviver com alguém que flerta com a manipulação e a tirania é uma guerra silenciosa. O tratamento é necessário — sobretudo para quem controla, mas também para quem é controlado.
O controlado, quando submetido por longos períodos a ambientes abusivos, pode desenvolver feridas profundas. A validação pessoal é corroída. A capacidade de escolha enfraquece. A própria opinião passa a ser questionada. Tratar essas marcas não é luxo, é sobrevivência.
O perfil controlador é mais difícil de alcançar. O primeiro obstáculo é o reconhecimento. Poucos se enxergam como controladores. Quase todos justificam seus atos como necessários, racionais ou protetivos.
Autores e estudos convergem em um ponto: sem autoconhecimento, não há tratamento. E sem tratar a raiz do problema, o controle apenas muda de endereço. Sai de uma área e invade outra.
Depois de pesquisar, refletir e escrever, fica uma constatação incômoda: maturidade é aceitar que nem tudo pode ser controlado. A tentativa incessante de vigiar, ordenar e antecipar cada detalhe transforma a vida em um campo de exaustão constante. Existem eventos que fogem ao domínio. O imprevisto é inevitável. Isso não é falha — é a condição da existência.
Viver é, também, suportar o que não se controla.
Referencias:
RADOMSKY, Adam S. The fear of losing control. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, v. 77, 2022, artigo 101768. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jbtep.2022.101768. Acesso em: 7 fev. 2026.
YOUTUBE. De onde vem essa necessidade em querer controlar tudo e às vezes todos? Casule Saúde e Bem-estar. YouTube, [s.d.]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yCQvqmJ6SiA. Acesso em: 7 fev. 2026.
O Carnaval nasceu como um acordo temporário com o caos. Máscaras, fantasias, anonimato. Um intervalo autorizado para a vulgaridade, para o excesso, para tudo aquilo que a rotina reprime. Durante alguns dias, as regras enfraqueciam e as pessoas respiravam por frestas.
Hoje, quase não há frestas. Já não é preciso se esconder. O Carnaval virou vitrine. Expor é a regra. Quanto mais se mostra, mais se existe. Mais barulho, mais pele, mais excesso. Quem não acompanha o ritmo fica de fora. Quem não aparece, some.
Houve um tempo em que eu pertenci a isso. Entrei no delírio com facilidade. Brilhos, glitter, cores saturadas, corpos suados, afetos rápidos. Dias em que o calor derretia a maquiagem e ninguém se importava. A ideia era simples: esquecer. Funcionar apesar de tudo. Ser feliz enquanto desse.
Agora estou em casa. Tomo banhos repetidos para tentar baixar a temperatura do corpo. O calor continua. Assisto aos blocos pela internet, como quem observa uma espécie diferente. Parte de mim quer voltar. Outra parte sabe que não pode.
Fui forçada a mudar.
Desenvolver um transtorno neurológico na fase mais instável da minha vida redesenhou tudo. Não houve escolha. Não houve adaptação lenta. Houve ruptura. Eu não queria estar aqui. Muito menos chorando por um Carnaval que meu corpo não sustenta mais.
O que eu queria?
O que ainda quero?
Quero controle. Não do mundo — de mim. Quero ser responsável pela minha filha sem medo de falhar. Quero trabalho, renda, previsibilidade. Quero não depender quando tudo apaga. Quero atravessar a rua sozinha sem calcular riscos invisíveis. Quero viver como antes, mas sem ilusões. Com limites claros. Com menos arrogância sobre o próprio corpo.
Damos valor às coisas quando as perdemos. É uma frase gasta. Ainda assim, verdadeira. Perdi a liberdade e só então entendi o tamanho dela. Eu saía com minha filha, com amigos, sozinha. Sentava em bares decadentes, bebia cerveja barata, ouvia qualquer banda de rock alternativo. Caminhava pela cidade, pelo parque, pela universidade. O mundo era acessível. Meu corpo respondia.
Eu era como o Carnaval atual: aberta, visível, excessiva. Comprava maquiagens demais, gastava horas diante do espelho, economizava para roupas novas. Planejava o futuro. Estudava. Trabalhava. Insistia na independência. Eu me movia. Eu brilhava.
Hoje, observo. A alegria dos outros passa pela tela. O medo me mantém dentro de casa. A culpa pesa por limitar a infância da minha filha e por depender do dinheiro da minha mãe. Os remédios que me mantêm funcional são os mesmos que mancham minha pele e me fazem dormir dez horas por dia.
Não existe cura. Existe espera. Exames. Ajustes de dosagem. Expectativas mal colocadas. Não há garantias. Posso estar aqui agora e, de repente, não estar mais. A memória falha. O corpo cai. Pessoas assistem a uma convulsão como quem presencia um evento. É meu estado mais frágil. Meu eu mais exposto. Depois, eu acordo sem saber o que perdi.
Este texto não nasceu para isso. Tinha outra intenção. Mas a escrita não pede permissão. Ela escava. Eu deixo. A dor encontra palavras antes que eu consiga impedir.
Meus arquivos de textos dizem muito sobre mim, e não consigo definir se isso é algo bom ou ruim.
Acredito piamente na ideia de que o autoconhecimento é um dos caminhos mais eficazes para a cura de feridas internas. Seguindo essa lógica, passei algumas horas vasculhando meu acervo de escritos, voltando-me especialmente aos mais antigos — arquivos que existem desde antes mesmo deste blog.
A evolução é curiosa e interessante. Ela revela tantas versões de uma mesma pessoa, ou até de uma mesma situação. A forma como eu lidava com o caos há alguns anos é bem diferente de hoje. Em certa medida, sinto orgulho disso, embora ainda reconheça que há muito a melhorar.
Revisitar o passado em seu estado mais cru — e perceber como os sentimentos se manifestavam de outra forma, com entonações muito mais vibrantes — é uma experiência intensa. Há textos que hoje me causam certa vergonha, mas sei que, naquele momento, senti tudo aquilo de forma genuína. Talvez nem seja preciso ir tão longe: neste próprio blog é possível enxergar partes de mim que ficaram devastadas por acontecimentos e que, antes de me acalmar e enxergar outras soluções, se expressaram em tons viscerais.
Escrever sempre me ajudou a clarear a mente. Traz-me paz interior e uma forte sensação de controle emocional. Talvez seja por isso que meus diários pessoais sejam tão expositivos.
Apesar de continuar escrevendo em diários, também passei a dar espaço para outros tipos de escrita. Há momentos em que me atraio por determinado assunto e sinto uma necessidade quase urgente de ler tudo sobre ele, para depois dissecar minhas opiniões em textos extensos. Descobri que isso é um ótimo passatempo. Também descobri quanto adoro criar mundos, para posteriormente descrevê-los em histórias e contos.
A escrita e literatura são parte da minha existência e parte do meu universo particular.
Ler a pessoa que eu fui me trouxe novas perspectivas sobre mim mesma, sobre minha progressão emocional e sobre o que ainda preciso mudar. Sinto alívio ao compreender melhor meu próprio processo de desenvolvimento e felicidade ao perceber que, finalmente, estou conseguindo seguir algum caminho.