Assisti Hilda, série da Netflix baseada nos romances gráficos de Luke Pearson, junto com minha filha.
Trata-se de uma animação infantil, dividida em três temporadas, que conta a história de uma garota de cabelos azuis. Hilda segue seus valores, protege quem ama e adora se aventurar com seu corça-raposa, Twig. Inicialmente, ela mora em uma casa isolada, em meio a florestas e montanhas, com sua mãe, Johanna. Ali, convive com criaturas mágicas e faz diversos passeios, demonstrando sua conexão com a natureza. No entanto, após fatos que fogem de seu controle, Hilda e Johanna são forçadas a deixar a floresta e se mudar para a cidade grande. É aí que a história se desenrola. Bastaram dois episódios para me apaixonar pela trama.
A série é inteligente, com uma narrativa que captura a atenção do público infantil e adulto. A história se passa em um mundo moderno alternativo, onde magia e cotidiano comum (eletricidade, escolas e transporte) coexistem harmoniosamente. Essa coexistência híbrida desenvolve temas como crescimento, adaptação a novos ambientes e o equilíbrio entre o mundo natural e o urbano.
Vi-me espelhada em vários personagens e suas características: no amigo desastrado, que precisa superar os medos mais profundos; na amiga estudiosa, que sempre tenta arrumar uma solução; e na mãe solo, que busca o melhor para a filha dentro de suas possibilidades. Também me identifiquei com personagens passageiros, como o homenzinho de madeira, o elfo minúsculo e o grande corvo. Quase todos têm um arco de desenvolvimento notável e inspirador — principalmente Hilda, que vemos crescer, aprender e cometer erros, mas que tenta sempre melhorar. Isso a torna próxima do espectador.
Um dos grandes méritos da série é a forma como aborda temas sociais e éticos por meio de metáforas inovadoras. As criaturas mágicas funcionam como representação simbólica do desconhecido e do diferente. Vemos como, em várias situações, as pessoas manifestam preconceito e intolerância com o que não conhecem. A série sugere, de forma delicada, que o medo do "outro" nasce da falta de conversa e de empatia. Hilda, a protagonista, torna-se uma ponte entre o mundo humano e o mágico, mostrando que ambos podem coexistir com base no diálogo e no respeito mútuo. Este é um dos pontos mais bonitos e fortes da animação, tornando-se um pontapé inicial para que as crianças compreendam a importância da conversa, da empatia e do respeito.
Amo os efeitos visuais e sonoros. Tenho apego por histórias com toque mágico, mas muitas vezes senti falta de conexão entre os estilos visuais e histórias que misturam o real com o imaginário, o que acaba em algo forçado. Mas não aqui.
O visual da série traz uma animação que lembra bastante o estilo de vida dos anos 90. As cores em tons pastéis e as texturas que evocam a ideia de aquarela, além dos traços simples, mas expressivos, combinam com o charme retrô. As paisagens naturais são belíssimas.
Exalto a sonoridade. Em diversos momentos, fechei os olhos e me senti dentro da história. As melodias melancólicas e misteriosas completam o universo visual e criam uma atmosfera encantada e emocional para a série.
O ritmo pode ser considerado mais lento, especialmente para quem está acostumado com animações mais dinâmicas. Contudo, é importante destacar que há mais favorecimento a um clima poético do que à ação. Em alguns momentos, minha filha ficou entediada.
Os episódios, em geral, têm cerca de 20 minutos; os finais de temporada ficam em torno de 30 a 40 minutos. As temporadas são histórias isoladas, mas fazem referências às anteriores. Recomendo assistir em ordem para acompanhar a evolução dos personagens.
A primeira temporada é mais dinâmica e infantil. Não possui um tema central, mas os episódios focam na própria Hilda. A maioria dos episódios não é amarrada, mas é comum ver referências passadas, o que torna a experiência agradável.
A segunda temporada é mais voltada aos temas sociais e éticos. O tema central gira em torno do preconceito com os trolls, e os episódios são mais amarrados. Também há dilemas mais evoluídos, como os de mãe e filha, e amizades. Nessa temporada, o último episódio é um filme chamado Hilda e o Rei da Montanha. É um filme interessante, embora um pouco arrastado e que, a meu ver, caberia em um episódio mais longo. Assistir a ele sem ver a segunda temporada deixa o espectador sem entender a narrativa. Não é um filme ruim, mas não é meu "filme-episódio" favorito.
A terceira e última temporada é minha preferida. Mistura episódios com clima mais misterioso, enquanto outros são mais dinâmicos e com suspense. A maioria dos capítulos é amarrada, portanto pular um deles impede a compreensão do próximo. Traz uma temática mágica focada em fadas e um dilema voltado para a descoberta do passado e da identidade. Aqui, entendemos mais sobre Johanna, a mãe da Hilda, que é maravilhosa, e nos são apresentados novos personagens importantes. Gosto mais da terceira temporada, pois a história, a sonoridade e os efeitos visuais são os melhores. O último episódio, principalmente, me fez chorar horrores.
Essa é minha perspectiva sobre a série Hilda. Possui muitos pontos altos e baixos, mas recomendo a todos, principalmente a quem ama uma atmosfera mágica e nostálgica. É uma obra com estética delicada, profundidade emocional e temas relevantes. Convida os espectadores a refletir sobre dilemas éticos, morais e pessoais, mostrando a possibilidade de convivência entre diversas culturas em um ambiente que respeita as individualidades. E tudo isso sem deixar de celebrar a aventura e a curiosidade infantil. É, sem dúvida, uma das minhas obras favoritas da Netflix.
Uma das minhas frases favoritas da série, dita na terceira temporada, Capítulo 6: O Lago Esquecido (a propósito, um dos meus episódios favoritos):
“Eu sou de uma época em que as criaturas não precisavam ser tão claramente uma coisa ou outra. Eu não tenho uma palavra para o que eu sou. Eu apenas sou.”