segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Hilda

Assisti Hilda, série da Netflix baseada nos romances gráficos de Luke Pearson, junto com minha filha.

Trata-se de uma animação infantil, dividida em três temporadas, que conta a história de uma garota de cabelos azuis. Hilda segue seus valores, protege quem ama e adora se aventurar com seu corça-raposa, Twig. Inicialmente, ela mora em uma casa isolada, em meio a florestas e montanhas, com sua mãe, Johanna. Ali, convive com criaturas mágicas e faz diversos passeios, demonstrando sua conexão com a natureza. No entanto, após fatos que fogem de seu controle, Hilda e Johanna são forçadas a deixar a floresta e se mudar para a cidade grande. É aí que a história se desenrola. Bastaram dois episódios para me apaixonar pela trama.

A série é inteligente, com uma narrativa que captura a atenção do público infantil e adulto. A história se passa em um mundo moderno alternativo, onde magia e cotidiano comum (eletricidade, escolas e transporte) coexistem harmoniosamente. Essa coexistência híbrida desenvolve temas como crescimento, adaptação a novos ambientes e o equilíbrio entre o mundo natural e o urbano.

Vi-me espelhada em vários personagens e suas características: no amigo desastrado, que precisa superar os medos mais profundos; na amiga estudiosa, que sempre tenta arrumar uma solução; e na mãe solo, que busca o melhor para a filha dentro de suas possibilidades. Também me identifiquei com personagens passageiros, como o homenzinho de madeira, o elfo minúsculo e o grande corvo. Quase todos têm um arco de desenvolvimento notável e inspirador — principalmente Hilda, que vemos crescer, aprender e cometer erros, mas que tenta sempre melhorar. Isso a torna próxima do espectador.

Um dos grandes méritos da série é a forma como aborda temas sociais e éticos por meio de metáforas inovadoras. As criaturas mágicas funcionam como representação simbólica do desconhecido e do diferente. Vemos como, em várias situações, as pessoas manifestam preconceito e intolerância com o que não conhecem. A série sugere, de forma delicada, que o medo do "outro" nasce da falta de conversa e de empatia. Hilda, a protagonista, torna-se uma ponte entre o mundo humano e o mágico, mostrando que ambos podem coexistir com base no diálogo e no respeito mútuo. Este é um dos pontos mais bonitos e fortes da animação, tornando-se um pontapé inicial para que as crianças compreendam a importância da conversa, da empatia e do respeito.

Amo os efeitos visuais e sonoros. Tenho apego por histórias com toque mágico, mas muitas vezes senti falta de conexão entre os estilos visuais e histórias que misturam o real com o imaginário, o que acaba em algo forçado. Mas não aqui.

O visual da série traz uma animação que lembra bastante o estilo de vida dos anos 90. As cores em tons pastéis e as texturas que evocam a ideia de aquarela, além dos traços simples, mas expressivos, combinam com o charme retrô. As paisagens naturais são belíssimas.

Exalto a sonoridade. Em diversos momentos, fechei os olhos e me senti dentro da história. As melodias melancólicas e misteriosas completam o universo visual e criam uma atmosfera encantada e emocional para a série.

O ritmo pode ser considerado mais lento, especialmente para quem está acostumado com animações mais dinâmicas. Contudo, é importante destacar que há mais favorecimento a um clima poético do que à ação. Em alguns momentos, minha filha ficou entediada.

Os episódios, em geral, têm cerca de 20 minutos; os finais de temporada ficam em torno de 30 a 40 minutos. As temporadas são histórias isoladas, mas fazem referências às anteriores. Recomendo assistir em ordem para acompanhar a evolução dos personagens.

A primeira temporada é mais dinâmica e infantil. Não possui um tema central, mas os episódios focam na própria Hilda. A maioria dos episódios não é amarrada, mas é comum ver referências passadas, o que torna a experiência agradável.

A segunda temporada é mais voltada aos temas sociais e éticos. O tema central gira em torno do preconceito com os trolls, e os episódios são mais amarrados. Também há dilemas mais evoluídos, como os de mãe e filha, e amizades. Nessa temporada, o último episódio é um filme chamado Hilda e o Rei da Montanha. É um filme interessante, embora um pouco arrastado e que, a meu ver, caberia em um episódio mais longo. Assistir a ele sem ver a segunda temporada deixa o espectador sem entender a narrativa. Não é um filme ruim, mas não é meu "filme-episódio" favorito.

A terceira e última temporada é minha preferida. Mistura episódios com clima mais misterioso, enquanto outros são mais dinâmicos e com suspense. A maioria dos capítulos é amarrada, portanto pular um deles impede a compreensão do próximo. Traz uma temática mágica focada em fadas e um dilema voltado para a descoberta do passado e da identidade. Aqui, entendemos mais sobre Johanna, a mãe da Hilda, que é maravilhosa, e nos são apresentados novos personagens importantes. Gosto mais da terceira temporada, pois a história, a sonoridade e os efeitos visuais são os melhores. O último episódio, principalmente, me fez chorar horrores.

Essa é minha perspectiva sobre a série Hilda. Possui muitos pontos altos e baixos, mas recomendo a todos, principalmente a quem ama uma atmosfera mágica e nostálgica. É uma obra com estética delicada, profundidade emocional e temas relevantes. Convida os espectadores a refletir sobre dilemas éticos, morais e pessoais, mostrando a possibilidade de convivência entre diversas culturas em um ambiente que respeita as individualidades. E tudo isso sem deixar de celebrar a aventura e a curiosidade infantil. É, sem dúvida, uma das minhas obras favoritas da Netflix.

Uma das minhas frases favoritas da série, dita na terceira temporada, Capítulo 6: O Lago Esquecido (a propósito, um dos meus episódios favoritos):


“Eu sou de uma época em que as criaturas não precisavam ser tão claramente uma coisa ou outra. Eu não tenho uma palavra para o que eu sou. Eu apenas sou.”

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Limonada salgada

Você já ouviu a história da Limonada Salgada?
Essa parábola, que circula há anos nas redes sociais, é frequentemente apresentada como um experimento psicológico, embora não seja um estudo científico comprovado nos moldes acadêmicos. Ainda assim, sua força não está na metodologia, mas no que ela revela simbolicamente sobre educação, gênero e comportamento social.

A história é simples: duas turmas de crianças recebem limonada feita com sal. Um grupo é composto apenas por meninos; o outro, apenas por meninas. Depois de beberem, as reações são observadas. Os meninos reclamam quase de imediato, demonstram incômodo, dizem que a bebida está ruim e deixam claro que não querem repetir a experiência. As meninas, por outro lado, hesitam. Muitas dizem que gostaram, mesmo sendo evidente que a limonada está intragável. Quando questionadas, explicam que não queriam parecer rudes ou magoar quem ofereceu o suco.

Essa história costuma ser usada para ilustrar como normas sociais de gênero moldam comportamentos desde cedo. E embora ela não represente a experiência de todas as meninas — afinal, gênero, classe, raça, cultura, território e estrutura familiar atravessam essa vivência de formas muito distintas —, ela toca em um ponto sensível e recorrente: a expectativa de que meninas aprendam a se conter, a agradar e a silenciar desconfortos.

Homens, em geral, são educados para expressar vontades, correr riscos e ocupar espaço. Mulheres, por sua vez, são incentivadas a serem “boas”, conciliadoras e emocionalmente responsáveis pelo ambiente ao redor, mesmo quando isso implica ignorar o próprio mal-estar. Essa diferença de socialização não nasce do acaso, nem da intenção consciente de machucar; ela é parte de uma estrutura social que se reproduz geração após geração.

A questão que me inquieta não é afirmar uma relação direta e automática entre infância e vida adulta, como se tudo fosse causa e efeito. A realidade é muito mais complexa. Mas vale a pergunta: será que esse treino precoce para dissimular desconfortos — para sorrir diante da limonada salgada — pode ser um dos muitos fatores que, mais tarde, dificulta dizer “não” em situações mais graves? Em relacionamentos abusivos, ambientes de trabalho tóxicos ou dinâmicas em que o limite pessoal é constantemente violado?

Mencionei em outros textos que tenho uma filha. Criar um ser humano é um exercício permanente de responsabilidade e dúvida. Envolve proteger, acolher, sustentar, ensinar — e, principalmente, servir de espelho. No meu caso, faço isso sendo mãe solo. Tenho receios reais sobre a educação que ofereço, porque não desejo perpetuar o ciclo da mulher que suporta injustiças em silêncio, sejam elas de gênero, classe ou econômicas.

Refletir sobre a história da limonada salgada me fez olhar para mim mesma. Percebi que, muitas vezes de forma irrefletida, acabo reproduzindo padrões antigos: minimizar sentimentos, incentivar o “não foi nada”, valorizar o bom comportamento acima da honestidade emocional. Nenhuma mãe deseja que sua filha aceite situações degradantes, mas reconhecer como isso começa em gestos pequenos é um passo necessário para promover mudanças reais.

Também é quase óbvio que fui criada para não questionar e para não expressar “sentimentos ruins”. E isso não foi culpa da minha mãe; ela também foi formada dentro dessa lógica. Trata-se de uma corrente social longa, profunda e estrutural. Felizmente, há sinais de ruptura. Ainda existe resistência — muitas vezes inconsciente — justamente porque esses padrões são tão naturalizados que se tornam difíceis de enxergar.

Os ensinamentos transmitidos na infância moldam valores, limites e crenças. A parábola da limonada salgada ilustra como, desde cedo, meninas aprendem que manter o ambiente agradável pode ser mais importante do que reconhecer suas próprias necessidades. Mas a mudança não pode recair apenas sobre elas.

Criar meninas fortes significa ensiná-las que seus sentimentos são válidos, que desconforto merece atenção e que estabelecer limites não é falta de educação. Significa permitir que digam “não gostei”, “isso me incomodou”, “não quero”. Ao mesmo tempo, criar meninos empáticos é ensiná-los a ouvir, a respeitar limites, a compreender que suas vontades não são as únicas que importam e que consentimento não é negociação, é princípio.

Conversas simples fazem diferença: perguntar o que a criança sentiu de verdade, validar emoções sem corrigi-las, explicar que ninguém é obrigado a agradar para ser aceito. São nesses momentos cotidianos que se constrói uma base emocional mais justa.

Toda essa reflexão nasceu de uma história simples e quase banal. Ainda assim, ela me levou a questionar os limites que estabeleço para mim mesma e a forma como conduzo a formação da minha filha. Se esse texto provocar ao menos um incômodo semelhante em quem lê, ele já cumpriu seu papel.

E deixo, para finalizar, a pergunta que permanece ecoando desde a primeira vez que ouvi essa parábola:

Quantas limonadas salgadas você já tomou?

Referências:

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Estética como ferramenta da autoestima

 Autoestima - sub. feminino.
Qualidade de quem se valoriza, está satisfeito com seu modo de ser, com sua forma de pensar ou com sua aparência física, expressando confiança em suas ações e opiniões.


Quando penso em um assunto específico, costumo fragmentá-lo. Desmonto ideias, observo cada parte, tento compreender os pedaços antes de formar um todo. Com os padrões estéticos não foi diferente. Passei dias refletindo até que, por fim, decidi colocar minhas hipóteses em palavras.

Fui tola. As horas se passaram até eu conseguir esboçar um rascunho que considerasse honesto o bastante. Travar ao escrever é comum, mas este tema toca feridas específicas — e talvez por isso nada que me parecesse justo ou verdadeiro conseguisse sair.

Por muitos anos, minha referência de autoestima foi medida pela régua da estética. Uma régua rígida, imprecisa e cruel. Algo que atravessou minha vida de maneiras que, por muito tempo, fui incapaz de compreender completamente.

O valor pessoal e o valor social caminham juntos de forma perigosa. Aprende-se cedo que, para ser aceita, é preciso caber. Caber em expectativas, em padrões, em imagens pré-fabricadas. E sobre o corpo feminino recaem as cobranças mais severas. Ser bela, para uma mulher, não é apenas um atributo — pode definir status, pertencimento e até dignidade.

Cresci em uma fase da sociedade em que a beleza era sinônimo de magreza extrema. Ossos à mostra, ausência total de gordura ou músculos. Magra. Apenas magra. Não havia alternativa.

Imagine ser uma garota nos anos 2000 e 2010. Revistas repletas de dietas milagrosas, relatos de emagrecimentos “bem-sucedidos”, receitas de sucos detox, indicações de remédios e fotos — muitas fotos — de modelos extremamente magras. Essa era a regra. E a balança que indicava se estávamos no caminho certo não era apenas a do banheiro, mas os elogios e as críticas alheias.

O desvio desse trilho era rápido e silencioso. Aos problemas de imagem somavam-se compulsões, transtornos alimentares, ansiedade, depressão e decisões desesperadas em nome de um desejo que nunca se satisfazia.

Hoje, os padrões continuam existindo, mas vestem outras roupas. Estão ligados a procedimentos estéticos, à cultura da academia e a coaches — muitas vezes sem qualquer formação — que opinam sobre treinos e dietas como se fossem verdades absolutas. Espalhou-se, então, a ideia de que parecer saudável é o novo ideal de beleza.

Não concordo. Ser saudável é importante, mas não da forma como isso é vendido. A sensação é que não se busca saúde, mas aparência. Sempre houve um padrão moldado ao seu tempo, e sempre haverá. São mecanismos de controle, formas sutis — e eficazes — de manipulação.

Nunca me adequei a esses padrões. Não por escolha estética ou desejo de ser diferente, mas porque simplesmente não consegui. Na adolescência, foi torturante ocupar o papel da “gordinha”. Passei dias sem comer, tentando emagrecer a qualquer custo, enquanto me comparava às garotas consideradas bonitas. Alguém precisava ser feia para que outra pudesse ser bela — e esse lugar era meu.

Não sei exatamente em que momento abandonei o autocuidado. Talvez ele tenha se perdido quando a depressão me tomou por inteiro. Ainda assim, preciso admitir: a estética continua tendo um peso considerável na régua da minha autoestima.

Com o tempo, o amadurecimento me trouxe alguma clareza sobre o que é belo e sobre quem — ou o que — devo ser. Hoje entendo que essa adequação insana aos padrões de beleza não consome apenas a saúde física e mental, mas também destrói valores pessoais, tritura identidades e sustenta uma autoestima instável, sempre à beira do colapso.

Quando me olho no espelho, enxergo defeitos. Gorda. Estrias, consequência de uma gravidez. Seios caídos pela amamentação. Celulites, unhas roídas, cabelo desalinhado, tatuagens à mostra, cicatrizes de acne. Tento não me fixar apenas nisso, mas depois de tanto tempo acreditando que precisava ser perfeita, ainda tenho dificuldade de enxergar o que há de bom.

Não sei se este texto diz exatamente tudo o que eu gostaria de dizer. Muito ficou de fora. Talvez eu não consiga — ou não queira — dissecar ainda mais esse assunto. Resta apenas uma pergunta, que insiste em permanecer:

o que acontece quando a aparência muda, mas a autoestima não aprende a mudar junto?

domingo, 4 de janeiro de 2026

Um registro qualquer sobre a vida

Esse texto não tem um propósito claro, é apenas sobre falar de coisas aleatórias e servir como uma forma de passar o tempo. Escrever e ler sempre foram meus prazeres, e resgatar isso tem acalentado a minha alma.

Dessa forma, nasce mais uma postagem, talvez sem muitos questionamentos, apenas uma descrição sobre a vida.

A entrada deste ano foi calma, sem alardes, crises ou dramas. Somente eu, meio inerte, sobrevivendo ao tédio e assistindo o mundo girar.

No momento, a sensação é de tranquilidade… É uma sensação boa e, ao mesmo tempo, assustadora.

Confesso que não sei aproveitar as calmarias. Sinto uma certa tensão, como se algo ruim fosse acontecer — e, de fato, algo ruim pode acontecer, faz parte da vida —, logo, não consigo relaxar tão bem.

Houve algumas inspirações de temas para escrever, porém não registrei os pensamentos em nenhum lugar e acabei esquecendo completamente a linha de raciocínio. Senti-me levemente frustrada, mas não me estressei; talvez eu me recorde de tudo depois.

Prestes a entrar na primeira segunda-feira de 2026, tenho questionado alguns desejos e alinhado melhor algumas metas. Não adianta inventar dezenas de objetivos e não conseguir finalizá-los; isso só traz decepção e sensação de fracasso. As metas precisam condizer com a minha realidade, assim posso me cobrar sem peso na consciência.

Estou farta de ficar parada e ver o mundo seguir. Não quero mais ser alguém fútil.

Desejo melhorar muitas coisas e, ao fim deste ano, realizar um balanço. Quero me orgulhar de ter evoluído, ainda que a passos pequenos.

As cinco metas principais são:

  1. Saúde

  2. Bem-estar psicológico

  3. Segurança financeira

  4. Leitura e escrita

  5. Estudo

Como indicado no início, este não é um texto cheio de questionamentos, mas um texto expositivo sobre mim mesma — algo para que fique registrado e, no futuro, eu possa reler.


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Entre promessas e o que sobra

Todo fim de ano carrega um ritual silencioso: o de fazer listas que raramente sobrevivem ao calendário. Metas, promessas, resoluções. Escrevemos como quem tenta organizar o caos, como se alinhar palavras fosse suficiente para alinhar a vida. Há sempre um novo começo projetado no próximo janeiro, como se a virada do ano tivesse o poder de nos devolver o fôlego que perdemos ao longo dos meses. 

Planejar é uma forma de acreditar. Quando traçamos objetivos, estamos dizendo — ainda que sem perceber — que esperamos continuar aqui, tentando. Esperamos ser melhores, mais constantes, mais atentos à vida que acontece enquanto corremos atrás dela. As metas de fim de ano não são apenas sobre o que queremos fazer, mas sobre quem desejamos ser quando o tempo avançar. 

O problema é que o ano começa, e a realidade tem seus próprios planos. O entusiasmo dos primeiros dias vai sendo substituído pelo cansaço, pelas urgências, pelas frustrações pequenas e acumuladas. Manter os planos exige uma disciplina que nem sempre temos, especialmente quando a vida pesa mais do que o previsto. Algumas metas se perdem já em fevereiro; outras resistem até metade do ano antes de serem silenciosamente abandonadas. 

E tudo bem admitir isso. Nem toda desistência é fracasso. Às vezes, é sobrevivência. 

Tentamos reviver a vida em novos ciclos porque algo em nós se recusa a aceitar o esgotamento como estado permanente. Mesmo quando falhamos em cumprir o que prometemos a nós mesmos, ainda há esse impulso quase teimoso de recomeçar. Ajustamos as expectativas, reformulamos os planos, diminuímos as cobranças — ou, pelo menos, tentamos.

No fim, o que quase sempre resta é a esperança. Não aquela esperança grandiosa, cinematográfica, mas a esperança discreta de quem continua acordando todos os dias e fazendo o possível com o que tem. A esperança de que, mesmo sem cumprir todas as metas, algo dentro de nós tenha mudado. Um olhar mais atento, uma pausa necessária, um aprendizado que não estava no plano inicial.

Talvez as metas de fim de ano não sirvam para serem cumpridas à risca. Talvez sirvam apenas como lembretes de que ainda desejamos algo diferente, algo melhor, algo mais vivo. E enquanto houver esse desejo — mesmo cansado, mesmo imperfeito — ainda há caminho.

Porque no meio dos planos interrompidos e das expectativas não realizadas, insistir em tentar já é, por si só, uma forma de esperança.

Este é a última reflexão de 2025. Um fechamento simples, sem grandes balanços. O ano passou com suas tentativas, falhas e aprendizados, e o que fica é o desejo de seguir — escrevendo, vivendo e tentando — mesmo quando tudo ainda parece incerto.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Guardado

Mantenho meus relatos silenciosos nesta página perdida da internet.

Tornou-se como um segredo protegido. Não que eu esteja lutando para manter meus desabafos escondidos, apenas sinto que mantê-los guardados do meu mundo real me traz um sabor diferente.

Os últimos dias do ano têm sido meio sufocantes para mim. Espero voltar umas duas ou três vezes, talvez postar sobre um ensaio pessoal ou mais algum relato aleatório — provavelmente a segunda opção.

Enfim, tenho vivido dias estranhos, atravessados por um caos interno. Uma roleta de decisões pula à minha frente, e eu tento entender qual caminho tomar.

Há muito tempo escrevi sobre minhas mirabolantes ideias de projetos. Alguns apenas dormiram, para que possam se tornar mais desenvolvidos, e ainda permanecem dentro da minha mente. Outros eu simplesmente matei, pois não condiziam com a pessoa que me tornei.

Este não será um dos meus textos extensos, mas é divertido, para mim, escrever pouco. Não escrevo para mostrar destreza — que não tenho — com as palavras; escrevo para expor minha alma.

Nessas poucas linhas, expus muito sobre mim. Parece pouco, mas é isso que estou vivendo: muito pouco.

Ainda quero postar uma ou duas coisas antes do final deste ano, mas talvez eu suma por aqui e demore para retornar…

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Dezembro e seu inevitável caos.

Cada mês do ano transmite uma sensação própria, quase como uma atmosfera que se encaixa nas realidades pessoais. Fevereiro, por exemplo, carrega a ousadia do carnaval, o calor do verão e as praias abarrotadas. Maio remete à maternidade e às celebrações dedicadas às mães. Há também as datas individuais, aquelas que marcam eventos importantes na vida de cada um.

Boa parte dessas sensações, no entanto, foi apropriada e mercantilizada pelo comércio, que estimula o consumo e garante o constante escoamento de produtos.

Dezembro, por sua vez, é intenso. Suas representações são diversas: a correria do fim de ano, as jornadas de trabalho sem pausa, o fluxo econômico acelerado, os ajustes das finanças e as clássicas comemorações de Natal e Ano-Novo. O último mês do ano simboliza união familiar, encerramento de ciclos e o planejamento de uma nova jornada.

Talvez por isso seja um período em que muitas pessoas fazem um balanço da própria vida — conquistas e fracassos, planos e metas, caminhos percorridos. Para alguns, esse processo é grandioso; para outros, é um verdadeiro caos.

Curioso notar como, em dezembro, fala-se muito sobre a força das celebrações e a sensação de recomeço, mas pouco se discute sobre os sentimentos íntimos — e por vezes negativos — que essa época também desperta. Arrisco dizer que, para muitos, dezembro é um pesadelo silencioso.

Há solidão, receio e, às vezes, medo. A reclusão se torna companheira de alguns, porque a intensidade do mês é incômoda e escancara que nem tudo é festa e sucesso. Nem todos amam esse período, e isso precisa ser compreendido.

Eu mesma vivo uma relação de amor e ódio com as intensidades que dezembro traz. Houve momentos em que fui mais feliz nesse mês. Em contraste, também houve um dezembro em que finalizei um relacionamento extremamente tóxico — algo que, à época, eu não conseguia enxergar. Atualmente, dezembro tem sido um pesadelo pessoal, pois me traz a forte sensação de que falhei nos últimos anos: na carreira, na vida pessoal, como filha e como mãe. O fracasso é cruel, e é justamente em dezembro que ele parece pulsar mais forte.

Meu balanço pessoal é turbulento, e aos trinta anos eu gostaria de ter conquistado mais. Ainda assim, sigo aqui. Não desprezo minha trajetória e reconheço as limitações que me impediram de caminhar no mesmo ritmo que outras pessoas, mas, às vezes, é exaustivo lidar com esse sentimento. Talvez eu esteja cobrando demais de mim mesma — talvez seja apenas isso.

Ao analisar tudo isso, percebo que dezembro está longe de ser apenas um mês comum. Existe um conceito por trás dele, uma narrativa e um simbolismo — comercial, pessoal ou religioso — que nenhuma outra época do ano possui. Dezembro é, inevitavelmente, um caos.