Venho me fixando no tema do controle há algum tempo. Li, pesquisei e observei mais do que pretendia. O assunto não se esgotou — se acumulou. Em algum ponto, escrever deixou de ser escolha e virou necessidade.
Este texto nasce desse excesso. Não busca respostas definitivas nem conforto. É uma elaboração pessoal, construída a partir de leitura, pesquisa e confronto.
O conteúdo é extenso e foi dividido em quatro partes. Cada uma toca o controle por um ângulo diferente, mas todas orbitam a mesma pergunta: até onde o controle sustenta — e a partir de quando ele destrói?
Parte 1 – Introdução ao conceito de controle
Controlar não é um ato simples. O controle se espalha por múltiplos significados e aplicações, mas aqui não me interessa a definição neutra ou técnica. Falo do controle como domínio, ordenação, administração e vigilância. Falo do impulso de direcionar e monitorar tudo aquilo que ameaça sair do eixo.
Antes de avançar, é necessário um aviso: meu entendimento é limitado. Este texto não se pretende verdade absoluta. Ele carrega meu olhar, minhas leituras e minhas feridas. É um recorte pessoal.
Recentemente, assisti a um vídeo curto — desses que aparecem e desaparecem sem deixar rastros. Não lembro a plataforma, perdi o conteúdo, mas não perdi o impacto. Falava sobre o controle exercido dentro de um espaço específico: a casa, o trabalho, o território. Falava sobre como pessoas obcecadas por ordem encontram autorregulação ao controlar o ambiente. Como o externo organizado anestesia o caos interno.
Dentro das minhas crenças, o controle é a matéria-prima do poder. Poder é a quantidade de controle que alguém consegue exercer sobre pessoas, corpos, rotinas ou ambientes. Onde há controle, há submissão. As pessoas obedecem não apenas por medo, mas pela promessa implícita de proteção, vantagem ou salvação. A regra vira abrigo.
Passei dias lendo sobre controle, autocontrole e sobre ser controlado. Não para buscar respostas definitivas, mas para escavar ideias e confrontar princípios que eu mesma sustentava sem questionar.
Controle é domínio. Quem controla, monitora, administra e direciona. Esse conjunto abre um campo vasto — e perigoso.
Sempre vi o controle como algo essencialmente nocivo. Hoje reconheço algo desconfortável: todos nós controlamos. Em doses mínimas, o controle sustenta a vida. Controlamos finanças para não afundar em dívidas. Controlamos a vida profissional para não cair no caos. O problema começa quando o controle deixa de ser ferramenta e passa a ser identidade. Quando tudo precisa estar sob vigilância. Quando qualquer desvio é vivido como ameaça.
Parte 2 – Perfil controlador e necessidade de controle
Dar conta de si já é um desafio. Ainda assim, algumas pessoas avançam além: passam a administrar vidas alheias, decisões externas, ambientes que não lhes pertencem. Retiram escolhas, anulam opiniões. Chamam isso de cuidado, zelo ou responsabilidade.
É aqui que nasce o perfil controlador.
Esse perfil atravessa transtornos, contextos e histórias. Ele não surge do nada. Costuma ser moldado por crises, perdas, instabilidade e experiências onde o imprevisível causou dor demais. O resultado é uma crença rígida: tudo precisa estar sob controle para que seja seguro.
Da vigilância constante nasce a obsessão pelo monitoramento. Controlar o ambiente gera uma falsa autorregulação. Tudo parece organizado, limpo, preparado para o pior. O mundo externo vira uma barricada contra o colapso interno.
Esse padrão se repete. Rigidez extrema. Dificuldade de adaptação. Isolamento social. Incapacidade de delegar e confiar. O outro é sempre visto como incompetente, irresponsável ou desorganizado. Há baixa tolerância ao estresse, explosões emocionais, esgotamento constante e frustração quando a realidade ousa sair do script.
Quando o controle alcança pessoas e não apenas objetos ou rotinas, a violência emocional se intensifica. O ambiente controlado adoece. Quem vive sob esse domínio sente opressão contínua, medo constante e tensão permanente. Qualquer imprevisto ativa reações intensas, desproporcionais, desestabilizadoras. O espaço deixa de ser seguro e passa a ser um campo minado.
Ainda assim, o controlador nem sempre parece um tirano em todas as áreas da vida. Às vezes, o controle se concentra em um único eixo. O trabalho, por exemplo. A pessoa vive para a carreira, exige excelência obsessiva, planeja cada passo, não admite falhas. Fora disso, leva uma vida pessoal vazia, morna, sem risco ou entrega. O controle consome tudo — e ainda assim nunca é suficiente.
Parte 3 – Perda de controle
O controlado costuma ser visto como a maior vítima. E muitas vezes é. Mas o controlador também sangra. Sofre sob o peso do próprio comportamento e, principalmente, sob o constante terror de perder o controle.
Artigos clínicos exploram esse medo em pessoas com transtornos como Transtorno do Pânico, TOC, Ansiedade Social e TEPT. O ponto em comum não é o diagnóstico, mas o pavor do colapso.
O medo não é apenas do caos externo. É da própria mente.
As pessoas temem perder:
O controle das emoções, acreditando que sentir “demais” é enlouquecer.
O controle dos pensamentos, sobretudo os intrusivos, agressivos ou sexuais.
O controle do comportamento, com medo de agir impulsivamente ou cometer algo irreversível.
O controle do corpo, das sensações físicas que parecem anunciar a morte ou a perda da sanidade.
O controle da mente como um todo — o medo de quebrar, de nunca mais voltar.
O ponto mais perturbador é este: na maioria das vezes, o controle não se perde de fato. O que acontece são decisões ruins, emoções intensas e experiências esmagadoras. Depois, tudo isso é rotulado como “perda de controle”. A narrativa é construída para justificar o medo.
O medo do descontrole é comum, clinicamente relevante e atravessa transtornos diferentes. Ignorá-lo é um erro. Encará-lo diretamente pode reduzir sintomas, atravessar diagnósticos e tornar a terapia mais eficaz.
Parte 4 – O tratamento
Conviver com alguém que flerta com a manipulação e a tirania é uma guerra silenciosa. O tratamento é necessário — sobretudo para quem controla, mas também para quem é controlado.
O controlado, quando submetido por longos períodos a ambientes abusivos, pode desenvolver feridas profundas. A validação pessoal é corroída. A capacidade de escolha enfraquece. A própria opinião passa a ser questionada. Tratar essas marcas não é luxo, é sobrevivência.
O perfil controlador é mais difícil de alcançar. O primeiro obstáculo é o reconhecimento. Poucos se enxergam como controladores. Quase todos justificam seus atos como necessários, racionais ou protetivos.
Autores e estudos convergem em um ponto: sem autoconhecimento, não há tratamento. E sem tratar a raiz do problema, o controle apenas muda de endereço. Sai de uma área e invade outra.
Depois de pesquisar, refletir e escrever, fica uma constatação incômoda: maturidade é aceitar que nem tudo pode ser controlado. A tentativa incessante de vigiar, ordenar e antecipar cada detalhe transforma a vida em um campo de exaustão constante. Existem eventos que fogem ao domínio. O imprevisto é inevitável. Isso não é falha — é a condição da existência.
Viver é, também, suportar o que não se controla. Referencias:
- CHAPMAN, David. The fantasy of control. Meaningness. Disponível em: https://meaningness.com/control. Acesso em: 9 fev. 2026.
- EM.COM.BR (Estado de Minas). Você tenta controlar tudo? A psicologia explica o risco oculto por trás desse comportamento. Estado de Minas, 23 dez. 2025. Disponível em: https://www.em.com.br/emfoco/2025/12/23/voce-tenta-controlar-tudo-a-psicologia-explica-o-risco-oculto-por-tras-desse-comportamento/. Acesso em: 8 fev. 2026.
- FORBES. Focus on what you can control. Forbes, 5 ago. 2021. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/kimjonker/2021/08/05/focus-on-what-you-can-control/. Acesso em: 9 fev. 2026.
- MASSARO, Luciana. Ansiedade e necessidade de controle: desenvolvendo flexibilidade emocional. Blog da Dra. Luciana Massaro. Disponível em: https://www.lucianamassaro.com/blog/ansiedade/ansiedade-e-necessidade-de-controle-flexibilidade-emocional. Acesso em: 8 fev. 2026.
- RADOMSKY, Adam S. The fear of losing control. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, v. 77, 2022, artigo 101768. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jbtep.2022.101768. Acesso em: 7 fev. 2026.
- YOUTUBE. Como lidar com a necessidade de controle. YouTube, [s.d.]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OY4HnDmnSOE. Acesso em: 7 fev. 2026.
- YOUTUBE. De onde vem essa necessidade em querer controlar tudo e às vezes todos? Casule Saúde e Bem-estar. YouTube, [s.d.]. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yCQvqmJ6SiA. Acesso em: 7 fev. 2026.