O Carnaval nasceu como um acordo temporário com o caos. Máscaras, fantasias, anonimato. Um intervalo autorizado para a vulgaridade, para o excesso, para tudo aquilo que a rotina reprime. Durante alguns dias, as regras enfraqueciam e as pessoas respiravam por frestas.
Hoje, quase não há frestas. Já não é preciso se esconder. O Carnaval virou vitrine. Expor é a regra. Quanto mais se mostra, mais se existe. Mais barulho, mais pele, mais excesso. Quem não acompanha o ritmo fica de fora. Quem não aparece, some.
Houve um tempo em que eu pertenci a isso. Entrei no delírio com facilidade. Brilhos, glitter, cores saturadas, corpos suados, afetos rápidos. Dias em que o calor derretia a maquiagem e ninguém se importava. A ideia era simples: esquecer. Funcionar apesar de tudo. Ser feliz enquanto desse.
Agora estou em casa. Tomo banhos repetidos para tentar baixar a temperatura do corpo. O calor continua. Assisto aos blocos pela internet, como quem observa uma espécie diferente. Parte de mim quer voltar. Outra parte sabe que não pode.
Fui forçada a mudar.
Desenvolver um transtorno neurológico na fase mais instável da minha vida redesenhou tudo. Não houve escolha. Não houve adaptação lenta. Houve ruptura. Eu não queria estar aqui. Muito menos chorando por um Carnaval que meu corpo não sustenta mais.
Quero controle. Não do mundo — de mim. Quero ser responsável pela minha filha sem medo de falhar. Quero trabalho, renda, previsibilidade. Quero não depender quando tudo apaga. Quero atravessar a rua sozinha sem calcular riscos invisíveis. Quero viver como antes, mas sem ilusões. Com limites claros. Com menos arrogância sobre o próprio corpo.
Damos valor às coisas quando as perdemos. É uma frase gasta. Ainda assim, verdadeira. Perdi a liberdade e só então entendi o tamanho dela. Eu saía com minha filha, com amigos, sozinha. Sentava em bares decadentes, bebia cerveja barata, ouvia qualquer banda de rock alternativo. Caminhava pela cidade, pelo parque, pela universidade. O mundo era acessível. Meu corpo respondia.
Eu era como o Carnaval atual: aberta, visível, excessiva. Comprava maquiagens demais, gastava horas diante do espelho, economizava para roupas novas. Planejava o futuro. Estudava. Trabalhava. Insistia na independência. Eu me movia. Eu brilhava.
Hoje, observo. A alegria dos outros passa pela tela. O medo me mantém dentro de casa. A culpa pesa por limitar a infância da minha filha e por depender do dinheiro da minha mãe. Os remédios que me mantêm funcional são os mesmos que mancham minha pele e me fazem dormir dez horas por dia.
Não existe cura. Existe espera. Exames. Ajustes de dosagem. Expectativas mal colocadas. Não há garantias. Posso estar aqui agora e, de repente, não estar mais. A memória falha. O corpo cai. Pessoas assistem a uma convulsão como quem presencia um evento. É meu estado mais frágil. Meu eu mais exposto. Depois, eu acordo sem saber o que perdi.
Este texto não nasceu para isso. Tinha outra intenção. Mas a escrita não pede permissão. Ela escava. Eu deixo. A dor encontra palavras antes que eu consiga impedir.