segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A festa continua sem mim

O Carnaval nasceu como um acordo temporário com o caos. Máscaras, fantasias, anonimato. Um intervalo autorizado para a vulgaridade, para o excesso, para tudo aquilo que a rotina reprime. Durante alguns dias, as regras enfraqueciam e as pessoas respiravam por frestas.

Hoje, quase não há frestas. Já não é preciso se esconder. O Carnaval virou vitrine. Expor é a regra. Quanto mais se mostra, mais se existe. Mais barulho, mais pele, mais excesso. Quem não acompanha o ritmo fica de fora. Quem não aparece, some.

Houve um tempo em que eu pertenci a isso. Entrei no delírio com facilidade. Brilhos, glitter, cores saturadas, corpos suados, afetos rápidos. Dias em que o calor derretia a maquiagem e ninguém se importava. A ideia era simples: esquecer. Funcionar apesar de tudo. Ser feliz enquanto desse.

Agora estou em casa. Tomo banhos repetidos para tentar baixar a temperatura do corpo. O calor continua. Assisto aos blocos pela internet, como quem observa uma espécie diferente. Parte de mim quer voltar. Outra parte sabe que não pode.

Fui forçada a mudar.

Desenvolver um transtorno neurológico na fase mais instável da minha vida redesenhou tudo. Não houve escolha. Não houve adaptação lenta. Houve ruptura. Eu não queria estar aqui. Muito menos chorando por um Carnaval que meu corpo não sustenta mais.

O que eu queria?
O que ainda quero?

Quero controle. Não do mundo — de mim. Quero ser responsável pela minha filha sem medo de falhar. Quero trabalho, renda, previsibilidade. Quero não depender quando tudo apaga. Quero atravessar a rua sozinha sem calcular riscos invisíveis. Quero viver como antes, mas sem ilusões. Com limites claros. Com menos arrogância sobre o próprio corpo.

Damos valor às coisas quando as perdemos. É uma frase gasta. Ainda assim, verdadeira. Perdi a liberdade e só então entendi o tamanho dela. Eu saía com minha filha, com amigos, sozinha. Sentava em bares decadentes, bebia cerveja barata, ouvia qualquer banda de rock alternativo. Caminhava pela cidade, pelo parque, pela universidade. O mundo era acessível. Meu corpo respondia.

Eu era como o Carnaval atual: aberta, visível, excessiva. Comprava maquiagens demais, gastava horas diante do espelho, economizava para roupas novas. Planejava o futuro. Estudava. Trabalhava. Insistia na independência. Eu me movia. Eu brilhava.

Hoje, observo. A alegria dos outros passa pela tela. O medo me mantém dentro de casa. A culpa pesa por limitar a infância da minha filha e por depender do dinheiro da minha mãe. Os remédios que me mantêm funcional são os mesmos que mancham minha pele e me fazem dormir dez horas por dia.

Não existe cura. Existe espera. Exames. Ajustes de dosagem. Expectativas mal colocadas. Não há garantias. Posso estar aqui agora e, de repente, não estar mais. A memória falha. O corpo cai. Pessoas assistem a uma convulsão como quem presencia um evento. É meu estado mais frágil. Meu eu mais exposto. Depois, eu acordo sem saber o que perdi.

Este texto não nasceu para isso. Tinha outra intenção. Mas a escrita não pede permissão. Ela escava. Eu deixo. A dor encontra palavras antes que eu consiga impedir.

Talvez um dia eu recupere parte do que fui.
Hoje, o Carnaval acontece lá fora.
Eu tomo outro banho, visto um pijama
e durmo enquanto o mundo continua.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Arquivos pessoais

Meus arquivos de textos dizem muito sobre mim, e não consigo definir se isso é algo bom ou ruim.
Acredito piamente na ideia de que o autoconhecimento é um dos caminhos mais eficazes para a cura de feridas internas. Seguindo essa lógica, passei algumas horas vasculhando meu acervo de escritos, voltando-me especialmente aos mais antigos — arquivos que existem desde antes mesmo deste blog.

A evolução é curiosa e interessante. Ela revela tantas versões de uma mesma pessoa, ou até de uma mesma situação. A forma como eu lidava com o caos há alguns anos é bem diferente de hoje. Em certa medida, sinto orgulho disso, embora ainda reconheça que há muito a melhorar.

Revisitar o passado em seu estado mais cru — e perceber como os sentimentos se manifestavam de outra forma, com entonações muito mais vibrantes — é uma experiência intensa. Há textos que hoje me causam certa vergonha, mas sei que, naquele momento, senti tudo aquilo de forma genuína. Talvez nem seja preciso ir tão longe: neste próprio blog é possível enxergar partes de mim que ficaram devastadas por acontecimentos e que, antes de me acalmar e enxergar outras soluções, se expressaram em tons viscerais.

Escrever sempre me ajudou a clarear a mente. Traz-me paz interior e uma forte sensação de controle emocional. Talvez seja por isso que meus diários pessoais sejam tão expositivos.

Apesar de continuar escrevendo em diários, também passei a dar espaço para outros tipos de escrita. Há momentos em que me atraio por determinado assunto e sinto uma necessidade quase urgente de ler tudo sobre ele, para depois dissecar minhas opiniões em textos extensos. Descobri que isso é um ótimo passatempo. Também descobri quanto adoro criar mundos, para posteriormente descrevê-los em histórias e contos.

A escrita e literatura são parte da minha existência e parte do meu universo particular. 

Ler a pessoa que eu fui me trouxe novas perspectivas sobre mim mesma, sobre minha progressão emocional e sobre o que ainda preciso mudar. Sinto alívio ao compreender melhor meu próprio processo de desenvolvimento e felicidade ao perceber que, finalmente, estou conseguindo seguir algum caminho.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Hilda

Assisti Hilda com a minha filha. Pensei que seria apenas mais uma animação infantil. Estava enganada.

Inspirada nos romances gráficos de Luke Pearson, a série é uma animação infantil dividida em três temporadas, que acompanha a história de uma garota de cabelos azuis. Hilda é firme em seus valores, protege quem ama e se lança ao desconhecido com uma naturalidade admirável, sempre acompanhada de seu corça-raposa, Twig. No início, vive com a mãe, Johanna, em uma casa isolada entre florestas e montanhas. Ali, a convivência com criaturas mágicas é parte da rotina, assim como os passeios e a relação profunda com a natureza. Quando acontecimentos fora de seu controle as obrigam a deixar a floresta e ir para a cidade grande, a narrativa ganha outra dimensão. É nesse deslocamento que a história se expande. Bastaram dois episódios para que eu me envolvesse completamente com a trama — e não foi um envolvimento passageiro.

A série é sensível e inteligente na medida certa. Consegue dialogar com o público infantil sem afastar o adulto. O mundo apresentado é moderno, com escolas, eletricidade e transporte, mas a magia não é escondida; ela existe ao lado do cotidiano comum. Essa convivência entre o fantástico e o urbano sustenta temas como crescimento, adaptação e pertencimento. Existe um conflito constante entre o que é natural e o que é urbano, entre o que é aceito e o que é temido. Nada soa forçado. A história se constrói com calma e consistência.

Identifiquei-me com vários personagens. No amigo desastrado que precisa enfrentar seus medos mais profundos. Na amiga estudiosa que tenta organizar o caos com lógica e soluções. Na mãe solo que busca oferecer o melhor à filha dentro das próprias limitações. Também me apeguei a personagens que aparecem menos, mas deixam marcas — o homenzinho de madeira, o elfo minúsculo, o grande corvo. Quase todos possuem algum tipo de desenvolvimento, e isso fortalece a narrativa. Hilda cresce ao longo das temporadas. Aprende, erra, insiste, amadurece. Essa evolução é visível e verdadeira.

Um dos pontos mais fortes da série está na forma como aborda temas sociais e éticos por meio de metáforas bem construídas. As criaturas mágicas representam o diferente, o desconhecido, aquilo que causa estranhamento. Em diversos momentos, o preconceito e a intolerância aparecem como reflexo do medo e da falta de diálogo. A série sugere, de maneira delicada, que a convivência só é possível quando há empatia. Hilda assume o papel de ponte entre os mundos humano e mágico, mostrando que a coexistência depende de respeito e escuta. Esse aspecto torna a animação não apenas bonita, mas relevante.

Os efeitos visuais e sonoros contribuem significativamente para a experiência. A estética remete a um estilo que lembra os anos 90, com cores em tons pastéis, texturas que evocam aquarela e traços simples, porém expressivos. As paisagens naturais são especialmente marcantes. Há um cuidado evidente na construção do ambiente. A trilha sonora complementa esse universo com melodias que transitam entre o melancólico e o misterioso. Em alguns momentos, fechei os olhos apenas para absorver o som. A combinação entre imagem e música cria uma atmosfera envolvente e emocional.

O ritmo pode parecer mais lento para quem está habituado a animações mais dinâmicas. Em alguns episódios, minha filha demonstrou certo tédio. Ainda assim, essa escolha narrativa privilegia o clima e o desenvolvimento das relações em vez da ação constante. A série opta por construir sensações e reflexões com paciência.

Os episódios têm, em média, 20 minutos, enquanto os finais de temporada se estendem um pouco mais. Embora cada temporada apresente sua própria estrutura, há continuidade entre elas. Recomendo assistir em ordem para acompanhar a evolução dos personagens e compreender melhor os conflitos.

A primeira temporada é mais leve e mais infantil. Não possui um tema central muito definido, e os episódios concentram-se nas experiências individuais de Hilda. Mesmo com histórias mais independentes, há referências que criam unidade e dão sensação de progressão.

A segunda temporada aprofunda os conflitos e apresenta um eixo temático mais claro, centrado no preconceito contra os trolls. Os episódios tornam-se mais conectados entre si, e os dilemas — especialmente os relacionados à relação entre mãe e filha — ganham mais complexidade. O episódio final, apresentado como filme, Hilda e o Rei da Montanha, encerra esse arco. Considero-o interessante, embora um pouco arrastado. Funciona melhor como conclusão da temporada do que como obra isolada.

A terceira e última temporada é, para mim, a mais impactante. Combina episódios com atmosfera mais misteriosa a outros com maior tensão narrativa. A maioria dos capítulos é interligada, o que exige atenção à sequência. A temática envolve fadas, identidade e passado. Descobrimos mais sobre Johanna, o que amplia significativamente a compreensão da história. Há maior densidade emocional, e a trilha sonora e os efeitos visuais atingem seu ponto mais forte. O episódio final foi particularmente marcante. Assisti com um nó na garganta e, ao terminar, precisei de alguns minutos para me recompor.

Essa é minha perspectiva sobre a série. Apesar de alguns momentos mais lentos, o conjunto é consistente e emocionalmente potente. Recomendo especialmente a quem aprecia atmosferas mágicas, narrativas que valorizam o crescimento dos personagens e histórias que abordam diferenças e convivência de forma sensível. É uma obra que combina delicadeza estética com profundidade temática. Tornou-se, sem exagero, uma das minhas favoritas da plataforma.

Uma das minhas frases favoritas da série, dita na terceira temporada, Capítulo 6: O Lago Esquecido (a propósito, um dos meus episódios favoritos):

“Eu sou de uma época em que as criaturas não precisavam ser tão claramente uma coisa ou outra. Eu não tenho uma palavra para o que eu sou. Eu apenas sou.”

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Limonada salgada

Você já ouviu a história da Limonada Salgada?
Essa parábola, que circula há anos nas redes sociais, é frequentemente apresentada como um experimento psicológico, embora não seja um estudo científico comprovado nos moldes acadêmicos. Ainda assim, sua força não está na metodologia, mas no que ela revela simbolicamente sobre educação, gênero e comportamento social.

A história é simples: duas turmas de crianças recebem limonada feita com sal. Um grupo é composto apenas por meninos; o outro, apenas por meninas. Depois de beberem, as reações são observadas. Os meninos reclamam quase de imediato, demonstram incômodo, dizem que a bebida está ruim e deixam claro que não querem repetir a experiência. As meninas, por outro lado, hesitam. Muitas dizem que gostaram, mesmo sendo evidente que a limonada está intragável. Quando questionadas, explicam que não queriam parecer rudes ou magoar quem ofereceu o suco.

Essa história costuma ser usada para ilustrar como normas sociais de gênero moldam comportamentos desde cedo. E embora ela não represente a experiência de todas as meninas — afinal, gênero, classe, raça, cultura, território e estrutura familiar atravessam essa vivência de formas muito distintas —, ela toca em um ponto sensível e recorrente: a expectativa de que meninas aprendam a se conter, a agradar e a silenciar desconfortos.

Homens, em geral, são educados para expressar vontades, correr riscos e ocupar espaço. Mulheres, por sua vez, são incentivadas a serem “boas”, conciliadoras e emocionalmente responsáveis pelo ambiente ao redor, mesmo quando isso implica ignorar o próprio mal-estar. Essa diferença de socialização não nasce do acaso, nem da intenção consciente de machucar; ela é parte de uma estrutura social que se reproduz geração após geração.

A questão que me inquieta não é afirmar uma relação direta e automática entre infância e vida adulta, como se tudo fosse causa e efeito. A realidade é muito mais complexa. Mas vale a pergunta: será que esse treino precoce para dissimular desconfortos — para sorrir diante da limonada salgada — pode ser um dos muitos fatores que, mais tarde, dificulta dizer “não” em situações mais graves? Em relacionamentos abusivos, ambientes de trabalho tóxicos ou dinâmicas em que o limite pessoal é constantemente violado?

Mencionei em outros textos que tenho uma filha. Criar um ser humano é um exercício permanente de responsabilidade e dúvida. Envolve proteger, acolher, sustentar, ensinar — e, principalmente, servir de espelho. No meu caso, faço isso sendo mãe solo. Tenho receios reais sobre a educação que ofereço, porque não desejo perpetuar o ciclo da mulher que suporta injustiças em silêncio, sejam elas de gênero, classe ou econômicas.

Refletir sobre a história da limonada salgada me fez olhar para mim mesma. Percebi que, muitas vezes de forma irrefletida, acabo reproduzindo padrões antigos: minimizar sentimentos, incentivar o “não foi nada”, valorizar o bom comportamento acima da honestidade emocional. Nenhuma mãe deseja que sua filha aceite situações degradantes, mas reconhecer como isso começa em gestos pequenos é um passo necessário para promover mudanças reais.

Também é quase óbvio que fui criada para não questionar e para não expressar “sentimentos ruins”. E isso não foi culpa da minha mãe; ela também foi formada dentro dessa lógica. Trata-se de uma corrente social longa, profunda e estrutural. Felizmente, há sinais de ruptura. Ainda existe resistência — muitas vezes inconsciente — justamente porque esses padrões são tão naturalizados que se tornam difíceis de enxergar.

Os ensinamentos transmitidos na infância moldam valores, limites e crenças. A parábola da limonada salgada ilustra como, desde cedo, meninas aprendem que manter o ambiente agradável pode ser mais importante do que reconhecer suas próprias necessidades. Mas a mudança não pode recair apenas sobre elas.

Criar meninas fortes significa ensiná-las que seus sentimentos são válidos, que desconforto merece atenção e que estabelecer limites não é falta de educação. Significa permitir que digam “não gostei”, “isso me incomodou”, “não quero”. Ao mesmo tempo, criar meninos empáticos é ensiná-los a ouvir, a respeitar limites, a compreender que suas vontades não são as únicas que importam e que consentimento não é negociação, é princípio.

Conversas simples fazem diferença: perguntar o que a criança sentiu de verdade, validar emoções sem corrigi-las, explicar que ninguém é obrigado a agradar para ser aceito. São nesses momentos cotidianos que se constrói uma base emocional mais justa.

Toda essa reflexão nasceu de uma história simples e quase banal. Ainda assim, ela me levou a questionar os limites que estabeleço para mim mesma e a forma como conduzo a formação da minha filha. Se esse texto provocar ao menos um incômodo semelhante em quem lê, ele já cumpriu seu papel.

E deixo, para finalizar, a pergunta que permanece ecoando desde a primeira vez que ouvi essa parábola:

Quantas limonadas salgadas você já tomou?

Referências:

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Estética como ferramenta da autoestima

 Autoestima - sub. feminino.
Qualidade de quem se valoriza, está satisfeito com seu modo de ser, com sua forma de pensar ou com sua aparência física, expressando confiança em suas ações e opiniões.


Quando penso em um assunto específico, costumo fragmentá-lo. Desmonto ideias, observo cada parte, tento compreender os pedaços antes de formar um todo. Com os padrões estéticos não foi diferente. Passei dias refletindo até que, por fim, decidi colocar minhas hipóteses em palavras.

Fui tola. As horas se passaram até eu conseguir esboçar um rascunho que considerasse honesto o bastante. Travar ao escrever é comum, mas este tema toca feridas específicas — e talvez por isso nada que me parecesse justo ou verdadeiro conseguisse sair.

Por muitos anos, minha referência de autoestima foi medida pela régua da estética. Uma régua rígida, imprecisa e cruel. Algo que atravessou minha vida de maneiras que, por muito tempo, fui incapaz de compreender completamente.

O valor pessoal e o valor social caminham juntos de forma perigosa. Aprende-se cedo que, para ser aceita, é preciso caber. Caber em expectativas, em padrões, em imagens pré-fabricadas. E sobre o corpo feminino recaem as cobranças mais severas. Ser bela, para uma mulher, não é apenas um atributo — pode definir status, pertencimento e até dignidade.

Cresci em uma fase da sociedade em que a beleza era sinônimo de magreza extrema. Ossos à mostra, ausência total de gordura ou músculos. Magra. Apenas magra. Não havia alternativa.

Imagine ser uma garota nos anos 2000 e 2010. Revistas repletas de dietas milagrosas, relatos de emagrecimentos “bem-sucedidos”, receitas de sucos detox, indicações de remédios e fotos — muitas fotos — de modelos extremamente magras. Essa era a regra. E a balança que indicava se estávamos no caminho certo não era apenas a do banheiro, mas os elogios e as críticas alheias.

O desvio desse trilho era rápido e silencioso. Aos problemas de imagem somavam-se compulsões, transtornos alimentares, ansiedade, depressão e decisões desesperadas em nome de um desejo que nunca se satisfazia.

Hoje, os padrões continuam existindo, mas vestem outras roupas. Estão ligados a procedimentos estéticos, à cultura da academia e a coaches — muitas vezes sem qualquer formação — que opinam sobre treinos e dietas como se fossem verdades absolutas. Espalhou-se, então, a ideia de que parecer saudável é o novo ideal de beleza.

Não concordo. Ser saudável é importante, mas não da forma como isso é vendido. A sensação é que não se busca saúde, mas aparência. Sempre houve um padrão moldado ao seu tempo, e sempre haverá. São mecanismos de controle, formas sutis — e eficazes — de manipulação.

Nunca me adequei a esses padrões. Não por escolha estética ou desejo de ser diferente, mas porque simplesmente não consegui. Na adolescência, foi torturante ocupar o papel da “gordinha”. Passei dias sem comer, tentando emagrecer a qualquer custo, enquanto me comparava às garotas consideradas bonitas. Alguém precisava ser feia para que outra pudesse ser bela — e esse lugar era meu.

Não sei exatamente em que momento abandonei o autocuidado. Talvez ele tenha se perdido quando a depressão me tomou por inteiro. Ainda assim, preciso admitir: a estética continua tendo um peso considerável na régua da minha autoestima.

Com o tempo, o amadurecimento me trouxe alguma clareza sobre o que é belo e sobre quem — ou o que — devo ser. Hoje entendo que essa adequação insana aos padrões de beleza não consome apenas a saúde física e mental, mas também destrói valores pessoais, tritura identidades e sustenta uma autoestima instável, sempre à beira do colapso.

Quando me olho no espelho, enxergo defeitos. Gorda. Estrias, consequência de uma gravidez. Seios caídos pela amamentação. Celulites, unhas roídas, cabelo desalinhado, tatuagens à mostra, cicatrizes de acne. Tento não me fixar apenas nisso, mas depois de tanto tempo acreditando que precisava ser perfeita, ainda tenho dificuldade de enxergar o que há de bom.

Não sei se este texto diz exatamente tudo o que eu gostaria de dizer. Muito ficou de fora. Talvez eu não consiga — ou não queira — dissecar ainda mais esse assunto. Resta apenas uma pergunta, que insiste em permanecer:

o que acontece quando a aparência muda, mas a autoestima não aprende a mudar junto?

domingo, 4 de janeiro de 2026

Um registro qualquer sobre a vida

Esse texto não tem um propósito claro, é apenas sobre falar de coisas aleatórias e servir como uma forma de passar o tempo. Escrever e ler sempre foram meus prazeres, e resgatar isso tem acalentado a minha alma.

Dessa forma, nasce mais uma postagem, talvez sem muitos questionamentos, apenas uma descrição sobre a vida.

A entrada deste ano foi calma, sem alardes, crises ou dramas. Somente eu, meio inerte, sobrevivendo ao tédio e assistindo o mundo girar.

No momento, a sensação é de tranquilidade… É uma sensação boa e, ao mesmo tempo, assustadora.

Confesso que não sei aproveitar as calmarias. Sinto uma certa tensão, como se algo ruim fosse acontecer — e, de fato, algo ruim pode acontecer, faz parte da vida —, logo, não consigo relaxar tão bem.

Houve algumas inspirações de temas para escrever, porém não registrei os pensamentos em nenhum lugar e acabei esquecendo completamente a linha de raciocínio. Senti-me levemente frustrada, mas não me estressei; talvez eu me recorde de tudo depois.

Prestes a entrar na primeira segunda-feira de 2026, tenho questionado alguns desejos e alinhado melhor algumas metas. Não adianta inventar dezenas de objetivos e não conseguir finalizá-los; isso só traz decepção e sensação de fracasso. As metas precisam condizer com a minha realidade, assim posso me cobrar sem peso na consciência.

Estou farta de ficar parada e ver o mundo seguir. Não quero mais ser alguém fútil.

Desejo melhorar muitas coisas e, ao fim deste ano, realizar um balanço. Quero me orgulhar de ter evoluído, ainda que a passos pequenos.

As cinco metas principais são:

  1. Saúde

  2. Bem-estar psicológico

  3. Segurança financeira

  4. Leitura e escrita

  5. Estudo

Como indicado no início, este não é um texto cheio de questionamentos, mas um texto expositivo sobre mim mesma — algo para que fique registrado e, no futuro, eu possa reler.


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Entre promessas e o que sobra

Todo fim de ano carrega um ritual silencioso: o de fazer listas que raramente sobrevivem ao calendário. Metas, promessas, resoluções. Escrevemos como quem tenta organizar o caos, como se alinhar palavras fosse suficiente para alinhar a vida. Há sempre um novo começo projetado no próximo janeiro, como se a virada do ano tivesse o poder de nos devolver o fôlego que perdemos ao longo dos meses. 

Planejar é uma forma de acreditar. Quando traçamos objetivos, estamos dizendo — ainda que sem perceber — que esperamos continuar aqui, tentando. Esperamos ser melhores, mais constantes, mais atentos à vida que acontece enquanto corremos atrás dela. As metas de fim de ano não são apenas sobre o que queremos fazer, mas sobre quem desejamos ser quando o tempo avançar. 

O problema é que o ano começa, e a realidade tem seus próprios planos. O entusiasmo dos primeiros dias vai sendo substituído pelo cansaço, pelas urgências, pelas frustrações pequenas e acumuladas. Manter os planos exige uma disciplina que nem sempre temos, especialmente quando a vida pesa mais do que o previsto. Algumas metas se perdem já em fevereiro; outras resistem até metade do ano antes de serem silenciosamente abandonadas. 

E tudo bem admitir isso. Nem toda desistência é fracasso. Às vezes, é sobrevivência. 

Tentamos reviver a vida em novos ciclos porque algo em nós se recusa a aceitar o esgotamento como estado permanente. Mesmo quando falhamos em cumprir o que prometemos a nós mesmos, ainda há esse impulso quase teimoso de recomeçar. Ajustamos as expectativas, reformulamos os planos, diminuímos as cobranças — ou, pelo menos, tentamos.

No fim, o que quase sempre resta é a esperança. Não aquela esperança grandiosa, cinematográfica, mas a esperança discreta de quem continua acordando todos os dias e fazendo o possível com o que tem. A esperança de que, mesmo sem cumprir todas as metas, algo dentro de nós tenha mudado. Um olhar mais atento, uma pausa necessária, um aprendizado que não estava no plano inicial.

Talvez as metas de fim de ano não sirvam para serem cumpridas à risca. Talvez sirvam apenas como lembretes de que ainda desejamos algo diferente, algo melhor, algo mais vivo. E enquanto houver esse desejo — mesmo cansado, mesmo imperfeito — ainda há caminho.

Porque no meio dos planos interrompidos e das expectativas não realizadas, insistir em tentar já é, por si só, uma forma de esperança.

Este é a última reflexão de 2025. Um fechamento simples, sem grandes balanços. O ano passou com suas tentativas, falhas e aprendizados, e o que fica é o desejo de seguir — escrevendo, vivendo e tentando — mesmo quando tudo ainda parece incerto.