Há uma casa.
As panelas nunca estão vazias. A geladeira continua cheia. A água escorre da torneira, a energia permanece ligada e a internet nunca cai. As roupas aparecem limpas no guarda-roupa e as consultas médicas acontecem quando precisam acontecer.
A criança cresce sem conhecer a palavra "falta". A mãe, por outro lado, aprende diariamente o significado dela.
Há ausências que não são de comida, nem de dinheiro. São ausências de abrigo. O corpo permanece dentro da mesma casa, mas já não existe lugar para repousar.
Um dia existiram promessas. Hoje existem portas fechadas antes mesmo de serem trancadas. Conversas que cessam quando ela entra no cômodo. Olhares que dizem o que a boca já não precisa repetir.
Indesejada. É uma palavra curiosa. Não precisa ser pronunciada para ocupar todos os espaços da casa.
Pessoas adoecem. Famílias também.
Há doenças que prendem o corpo à cama e outras que acorrentam alguém a um lugar onde permanecer dói tanto quanto partir. A dependência tem o hábito de vestir roupas discretas. Vista de fora, parece apenas alguém que ainda não conseguiu seguir em frente.
Vista de dentro, parece uma sentença. Então surgem as pequenas condenações diárias.
Curioso como algumas palavras nunca levantam a voz. Ainda assim, encontram exatamente onde machucar.
Ela aceita.
Aceita porque a criança precisa continuar dormindo em um quarto seguro. Porque a comida continua chegando à mesa. Porque existe um teto. Porque, às vezes, amar alguém significa negociar consigo mesma até esquecer o próprio valor.
Toda ajuda cobra alguma coisa. Algumas cobram dinheiro. Outras cobram a dignidade.
Por fora, a fotografia parece bonita. Uma família presente. Uma mãe em recuperação. Uma criança protegida.
Por dentro, alguém desaparece um pouco mais todos os dias.
Ela sonha em partir. Não porque acredita que o mundo será gentil. Mas porque descobriu que existem lugares onde permanecer machuca mais do que enfrentar o desconhecido.
Talvez a liberdade não seja o fim da dor. Talvez seja apenas a primeira oportunidade de sentir uma dor que, enfim, possa cicatrizar.