Conhece a história do quarto desorganizado? Aquele velho conto que habita entre filósofos e psicólogos e que se propagou pela internet desde os primeiros anos das redes sociais?
A história é simples. Vou contá-la da maneira como a conheço.
Existe um quarto, um cômodo comum, habitado por um ser humano. O ambiente é um completo caos. Tudo está fora de ordem. Poeira acumulada nas janelas, na mesa de canto e nas estantes de livros. Roupas sujas empilhadas sobre uma cadeira; roupas limpas amontoadas dentro do armário, entre gavetas emperradas e cabides tortos. Objetos espalhados por todos os lados, canecas de café esquecidas nos cantos e papéis amassados pelo chão. A cama, que deveria representar descanso, encontra-se em estado lamentável: lençóis sujos, travesseiros manchados e cobertas com um odor desagradável.
Diante de uma situação dessas, espera-se que o dono do quarto arregace as mangas e comece a faxina imediatamente. Mas ele toma uma decisão inesperada. Entra no cômodo, empurra algumas coisas para o lado, joga a bagunça da cama no chão, deita-se e dorme.
A primeira reação de quem testemunha essa cena costuma ser a descrença. Como alguém consegue viver assim? A segunda é ainda mais previsível: concluir que o dono do quarto é imundo, preguiçoso ou relapso.
Julgar é fácil quando se observa a vida apenas pela própria perspectiva. Mas e se tentarmos compreender essa pessoa?
E se ela estiver gastando quase toda a energia que possui apenas para continuar existindo? E se já tiver tentado arrumar o quarto inúmeras vezes e fracassado em todas elas? Talvez seja alguém tão exausto que já cogite desistir daquele espaço.
Afinal, colocar um quarto em ordem exige, antes de tudo, fazer ainda mais bagunça. É preciso tirar tudo do lugar para que, depois, cada coisa encontre o seu devido espaço. Isso demanda tempo, paciência e obstinação. Exige ainda mais de alguém que já não acredita ser capaz de continuar.
Talvez essa pessoa não precise de julgamento. Talvez precise apenas de alguém disposto a ajudá-la a começar.
Sempre volto a essa história quando penso na minha própria vida. E, de certa forma, isso me desanima.
Quando reflito sobre as coisas que me entristecem, consigo listar inúmeras delas. A perda da minha independência talvez seja a mais intensa. Há também a depressão, que preciso enfrentar diariamente. O medo constante de que algo aconteça à minha filha. E a lista continua, alternando entre problemas imensos e outros aparentemente pequenos.
No entanto, nada me derrota tanto quanto enfrentar as minhas próprias falhas.
Aceitar os próprios defeitos é como mergulhar em água congelante. É voltar-se para dentro de si e encarar monstros antigos. É observar, sem desvios, os detalhes constrangedores que precisam mudar. E mexer nessas falhas dói. Fere o orgulho, desmonta convicções e obriga a abandonar versões confortáveis de quem acreditávamos ser. Exige, novamente, tempo, paciência e obstinação.
Penso na minha mente como esse quarto. Um cômodo tomado pelo caos, esperando por uma boa faxina. E, para que essa faxina aconteça, é inevitável atravessar o desconforto.
Aceitar e confrontar cada falha talvez elimine boa parte daquilo que alimenta meus sentimentos mais negativos. Ainda assim, devo admitir: isso está longe de ser simples.
Todos os dias, ao acordar, preciso me lembrar dessa faxina. E, antes mesmo de começar, já me sinto cansada. O peso da tarefa parece consumir a energia que eu ainda nem usei.
Talvez amanhã eu consiga dobrar uma roupa. Depois, limpar uma estante. Quem sabe, um dia, abrir a janela.