Eu sempre fui muitas coisas, ainda seria muitas mais. Essa é a parte mais interessante de viver: a possibilidade de não ser um molde padronizado. E isso é lindo.
É necessário reconhecer que isso, esse agora, o momento em si, não é realmente nosso. A ideia de possuir, de ter direito a algo, não é verdadeira. É apenas um sentimento que sacia a necessidade de segurança, mas nada aqui é meu ou seu. Tudo é passageiro e, hoje, o que te pertence, amanhã pode ser de outra pessoa.
Entretanto, a criação, de fato, pertence ao criador? Somos capazes de controlar nossas invenções e dar um rumo às nossas produções? O idealizador é responsável pela sua obra?
Se nada nos pertence e nada controlamos, o que posso dizer sobre as minhas memórias? Algumas fracas, vazias ou espinhosas; outras com formas e cheiros. Elas são minhas, correto?
Essa narrativa me traz um misto de sentimentos. Isso me cerca de tristeza, alívio e descrença. Posso concluir que sentimentos são tão únicos, com intensidades diferentes.
Nossas emoções são nossas de alguma forma, onde o que o outro sente diante das adversidades será tão singular a ele mesmo e talvez não represente nada para a minha existência. Além da ideia de que cada ser lida de forma diferente com o que sente: as frustrações, os amores, as dores e as felicidades.
Então o meu eu pertence a mim! Pois o que poderia ser eu? Não há outro de mim. Não há quem possa sentir, que possa passar pelas experiências que passei, que possa ver do meu ponto de vista. Não há alguém que seja eu, a não ser eu mesma.
Chegamos nesse ponto. Nada nos pertence, mas tudo o que somos nos pertence. Haverá um dia em que nada mais será nosso e, enfim, partiremos. E tudo fica para trás.
Somos espuma, bolhas de sabão, que voam e então estouram.