Começou com quadros de depressão e ansiedade. Com o tempo, eu já não queria levantar da cama. Tinha dificuldade para manter rotinas, não fazia nenhum exercício físico e descontava a raiva e a revolta na comida. Não é de se espantar que esse tenha sido o primeiro gatilho para a obesidade mórbida grau III.
Depois vieram efeitos neurológicos mais graves, como a epilepsia hipocampal. Pouco tempo depois, surgiu a hipertensão crônica. Agora, estou investigando um sopro no coração. Nessa situação, me informaram que, caso eu não mudasse, minha expectativa de vida dificilmente passaria dos 45 anos.
Muitas consultas marcadas. Exames e mais exames agendados. Médicos e enfermeiras olhando para mim com um misto de preocupação e compaixão. E eu, aos 31 anos, me sentindo completamente perdida. Caí no famoso efeito dominó: quando uma comorbidade é descoberta e, pouco depois, várias outras começam a aparecer.
Foi um golpe seco. Um impacto que me obrigou a enxergar minha realidade de outra forma. Entrei nessa situação por erros meus. Erros que poderiam ter sido evitados. Mas a depressão é corrosiva. É difícil pedir ajuda quando se tem medo de ser julgada.
Agora, com esse novo olhar, muitos filtros sobre a minha realidade se desfizeram. É claro que essa é uma situação reversível. Exige autocuidado. Exige seguir as orientações médicas, comparecer às sessões de terapia e tomar as medicações nos horários corretos. Nada vai mudar da noite para o dia. É um processo, uma evolução construída pouco a pouco. Exige disciplina.
O autocuidado é algo novo para mim. Nunca fui de me cuidar. Apenas me entregava ao marasmo e a uma vida regada por tristezas. Não porque esperasse ajuda de alguém, mas porque aceitava afundar e torcia pelo meu próprio fim.
Ainda me sinto vazia e triste de formas que não sei explicar. Dói não apenas no corpo físico. Dói por dentro. Não quero me fazer de coitada. Nunca fui e não quero ser.
Na verdade, não sei exatamente o que quero. Parte de mim implora pela luta, pela tentativa de se cuidar, pela insistência em não desistir. Outra parte sussurra que basta deixar acontecer. Esse não era meu desejo? De acabar comigo mesma? Pois bem, consegui entrar oficialmente no caminho da autodestruição.
Então olho para a única pessoa com quem me importo de verdade. Essa pessoinha tem apenas dez anos. Não quero ser injusta com ela. A decisão não veio por mim. Veio por ela.
Se não faço por mim, então faço por ela.
Estou aqui, fazendo algo por mim mesma. Talvez seja a primeira vez, em toda a minha existência, que tomo uma decisão genuinamente boa para mim. Finalmente pedi ajuda. Agora sei que estou tentando de verdade. Sei que entrei em um novo caminho.
Não posso desistir.