terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Entre promessas e o que sobra

Todo fim de ano carrega um ritual silencioso: o de fazer listas que raramente sobrevivem ao calendário. Metas, promessas, resoluções. Escrevemos como quem tenta organizar o caos, como se alinhar palavras fosse suficiente para alinhar a vida. Há sempre um novo começo projetado no próximo janeiro, como se a virada do ano tivesse o poder de nos devolver o fôlego que perdemos ao longo dos meses. 

Planejar é uma forma de acreditar. Quando traçamos objetivos, estamos dizendo — ainda que sem perceber — que esperamos continuar aqui, tentando. Esperamos ser melhores, mais constantes, mais atentos à vida que acontece enquanto corremos atrás dela. As metas de fim de ano não são apenas sobre o que queremos fazer, mas sobre quem desejamos ser quando o tempo avançar. 

O problema é que o ano começa, e a realidade tem seus próprios planos. O entusiasmo dos primeiros dias vai sendo substituído pelo cansaço, pelas urgências, pelas frustrações pequenas e acumuladas. Manter os planos exige uma disciplina que nem sempre temos, especialmente quando a vida pesa mais do que o previsto. Algumas metas se perdem já em fevereiro; outras resistem até metade do ano antes de serem silenciosamente abandonadas. 

E tudo bem admitir isso. Nem toda desistência é fracasso. Às vezes, é sobrevivência. 

Tentamos reviver a vida em novos ciclos porque algo em nós se recusa a aceitar o esgotamento como estado permanente. Mesmo quando falhamos em cumprir o que prometemos a nós mesmos, ainda há esse impulso quase teimoso de recomeçar. Ajustamos as expectativas, reformulamos os planos, diminuímos as cobranças — ou, pelo menos, tentamos.

No fim, o que quase sempre resta é a esperança. Não aquela esperança grandiosa, cinematográfica, mas a esperança discreta de quem continua acordando todos os dias e fazendo o possível com o que tem. A esperança de que, mesmo sem cumprir todas as metas, algo dentro de nós tenha mudado. Um olhar mais atento, uma pausa necessária, um aprendizado que não estava no plano inicial.

Talvez as metas de fim de ano não sirvam para serem cumpridas à risca. Talvez sirvam apenas como lembretes de que ainda desejamos algo diferente, algo melhor, algo mais vivo. E enquanto houver esse desejo — mesmo cansado, mesmo imperfeito — ainda há caminho.

Porque no meio dos planos interrompidos e das expectativas não realizadas, insistir em tentar já é, por si só, uma forma de esperança.

Este é a última reflexão de 2025. Um fechamento simples, sem grandes balanços. O ano passou com suas tentativas, falhas e aprendizados, e o que fica é o desejo de seguir — escrevendo, vivendo e tentando — mesmo quando tudo ainda parece incerto.

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