terça-feira, 5 de maio de 2026

A ausência também cria forma

Quando ela tinha 11 meses, nos separamos pela primeira vez. Apesar de ter ido embora, eu queria muito que ele ficasse. Depois disso, vivemos um longo período de idas e vindas.

Quando ela fez 3 anos, fui morar na casa dele. Me forcei a acreditar que estava feliz, que estava fazendo a minha família funcionar, que não haveria outra separação, que o amor iria curar tudo.

Nessa mesma época, me dei conta do óbvio: depois de anos e mais anos, apenas eu fazia tudo. Eu me convidei para aquele casamento. Eu me machuquei para manter o relacionamento. Me apequenei porque acreditava muito no amor. Nunca foi amor, enfim.

Ela, com seus 4, quase 5 anos, estava lá o tempo todo. Em todos os momentos, bons e ruins. Era o meu único e verdadeiro amor. A pessoa pela qual valia a pena viver. Então, sabendo que doeria em mim — mas que seria para o meu bem e o bem dela — eu me fui.

Quando o casamento rompeu de vez e ele percebeu que eu não voltaria mais, ele também partiu.

No início, dizia que precisava manter distância, que minha presença machucava. Mas o que ficou foi o silêncio. A cada final de semana, ela perguntava: “Mãe, o papai vem hoje?”. Eu não tinha respostas. O coraçãozinho dela se partindo — e eu sem poder fazer nada.

Ele sumia. Quase nunca mandava notícias e, quando mandava, eram desculpas: não tinha dinheiro, estava cansado, tinha trabalhado demais.

Eu também tinha trabalhado a semana inteira. Eu também tinha estudado. Eu também tinha cuidado de uma menininha todos os dias. E eu ainda estava lá. Ainda que cansada, quebrada e abalada, eu estava lá.

Minha mãe tem uma frase: “É nos pequenos detalhes que observamos o muito”. Demorei a entender. Hoje, eu vivo isso.

Ela já tem 10 anos. Não precisa de presentes caros, nem de passeios luxuosos. Precisa de amor, de cuidado, de presença. Precisa do pai.

Ele não está. Não estava lá quando ela se formou no prézinho, não foi às festas da escola, não esteve quando ela ficou doente, nem mesmo ligou no aniversário dela.

No começo, eu briguei. Ver o coração dela se partindo me revoltava, e eu exigia a presença dele. Com o tempo, entendi: ele não vinha porque não queria. E não se cobra presença de quem escolhe não estar.

Ontem, ela disse: “Meu pai é um bom amigo, mas ele não é um bom pai”.

Foi aí que eu entendi que a ausência também cria forma. E que ela já começou a aprender o que eu levei anos para aceitar.