terça-feira, 31 de março de 2026

Últimas notas de março: Trinta e uma voltas depois

Seguir a vida, independentemente do fluxo, da intensidade ou do momento. Apenas seguir, mesmo quando tudo em mim pede pausa. Esse tem sido o meu lema.

Março sempre foi o meu mês. Quando meus pensamentos ganham volume, minhas críticas se tornam mais afiadas, meus planos mais frágeis e minha existência, inevitavelmente, entra em questão.

Viver março é cansativo. Às vezes, quase insustentável. Não reclamo da intensidade; há uma estranha honestidade nela. Apenas tento respirar dentro desse turbilhão de emoções.

O meu dia veio, marcou as 31 voltas em torno do sol e partiu como chegou. Sem anúncios, sem rupturas. Nada de novo, apenas a repetição cuidadosa do cotidiano: acordei, levantei, tomei café, tentei organizar o que parecia desalinhado, desperdicei tempo rolando feeds, comi um bolo trazido pela família e, por fim, dormir… Além deles, apenas um único amigo se lembrou de mim.

E, ainda assim, não houve surpresa. Não esperei nada, nem sequer me permiti construir expectativas. Aquela velha ideia: quem não marca presença não faz falta quando se ausenta. Não doeu. O que me desconcertou foi justamente isso: a ausência de dor, a indiferença serena diante do esquecimento.

No fundo, eu não queria comemorar. Queria me recolher. Fazer de mim um casulo, me embrenhar em mim mesma, desaparecer entre cobertas e pensamentos e apenas sumir.

Comemorações são rituais de passagem. São marcos, começos, pequenas celebrações de movimento. Mas eu permaneço presa a um ciclo onde tudo retorna ao mesmo ponto: caos, instabilidade, repetição. Eu não queria comemorar a minha existência. 

Isso não significa que desisti de viver. Há uma diferença silenciosa entre as duas coisas. Continuo seguindo. O fluxo oscila e a intensidade por vezes transborda, mas sigo, ainda assim.

Nunca fui de crer em divindades que interferem constantemente no curso da vida. Não tenho uma fé definida; talvez o agnosticismo seja a minha porta. De qualquer forma, não acredito que exista um Deus traça planos específicos e num olhar superior tenha decidido: “este será o caminho mais difícil”. Ainda que carregue o peso da culpa, creio que sou o produto das minhas próprias condutas.

E março, como de costume, me devolve perguntas.

Sei que não fiz as melhores escolhas. Compreendo as consequências, aceito os combates que eu mesma provoquei. Mas há algo que ainda me inquieta: é preciso tanto? Tantas dores, tantos fracassos, tantas perdas? Até quando esse equilíbrio instável, essa vida em corda bamba?

Assim, entre respostas que não vieram e silêncios que permaneceram, encerro mais um ciclo. Fecho o meu mês — o meu março — não com conclusões, mas com a estranha sensação de continuidade.

Como se tudo ainda estivesse por acontecer.

Até o próximo ano.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Mais algumas notas de março: As casas respiram à noite

Sabe aquelas noites em que a insônia insiste em pesar sobre os ombros? Quando os olhos simplesmente se recusam a fechar? Pois bem, essas madrugadas já se tornaram familiares para mim. Com o tempo, aprendi a aceitá-las e até a encontrar certo conforto nesses intervalos de vigília.

Numa dessas ocasiões em que o descanso não quis aparecer, passei a vagar pelos cômodos da casa. Do quarto para a sala, da sala para o banheiro, do banheiro para a cozinha e da cozinha até a varanda. Um percurso repetido tantas vezes que já parecia coreografado, como se fosse parte de um velho repertório.

Quando cheguei à varanda, acomodei-me numa cadeira estofada e deixei a cabeça repousar sobre a mureta. Fiquei ali por algum tempo, observando o céu noturno. As nuvens cobriam tudo, escondendo o luar e deixando no ar aquele pressentimento silencioso de chuva próxima. O quintal permanecia mergulhado na escuridão, enquanto as árvores balançavam lentamente ao compasso do vento. O silêncio era denso, quase sepulcral.

A mesma solidão que, por vezes, me consome é também aquela que me acolhe em noites como essa. Quando os dias se tornam intensos demais, encontro algum alívio em me recolher durante a madrugada, dentro desse espaço silencioso que carrego em mim. É um repouso estranho, mas necessário. Algo que, de certa forma, acalma minha mente cansada.

A casa permanecia apagada, e a única claridade vinha das janelas das residências vizinhas. Não havia muito a fazer além de permanecer ali e permitir que aquele instante existisse.

Era tudo tão quieto, tão sereno. Naquela madrugada, meus pensamentos não gritaram como costumam fazer. Em vez disso, vieram em forma de sussurro, como um convite delicado para olhar o mundo com menos peso. Foi assim que acabei me lembrando das minhas antigas fantasias de infância.

Quando criança, minha imaginação era fértil. Eu gostava de acreditar que os objetos inanimados possuíam algum tipo de vida secreta e que, quando ninguém estava olhando, respiravam, se moviam e até conversavam entre si.

Era uma ingenuidade doce, quase ingênua demais. Ainda assim, enquanto permanecia ali naquela quietude, percebi que talvez houvesse um pequeno fragmento de verdade escondido dentro dessas fantasias. Durante as madrugadas silenciosas, as construções ao redor parecem adquirir uma espécie de alma — algo que não conseguem revelar à luz do dia, mas que se insinua quando tudo repousa. Seus vidros empoeirados, os matos rasteiros no quintal ou as telhas gastas pelo tempo parecem carregar histórias que ninguém escuta.

Talvez seja apenas imaginação… mas encontrei certa magia nas casas ao meu redor. E também percebi algo semelhante na minha própria morada, que um dia foi meu castelo e hoje continua sendo o castelo da minha filha.

Enquanto muitos se entregavam às folias da madrugada, eu vivia algo silencioso, quase secreto. Agradeci, em pensamento, à minha mente por ter me conduzido até a varanda. Entre todas as pequenas experiências noturnas que já tive, aquela certamente foi uma das mais singulares.

Respirei mais uma vez. O ar estava pesado e morno.

Então me levantei e voltei para dentro. Ainda precisava insistir um pouco mais no sono. Mas, naquela noite, a madrugada já tinha me oferecido companhia suficiente.

domingo, 15 de março de 2026

Outras notas de março: Caminhante

Antes, quando eu não tinha medo, costumava andar por bairros aleatórios, ruas desconhecidas e me aventurar por caminhos incertos. Era quase como um hobby peculiar: vagar por lugares, conhecer o desconhecido e apreciar as formas ao redor.

Era muito mais que um exercício físico. Era um processo de autoconhecimento, no qual, enquanto eu caminhava e observava a cidade, colocava meus pensamentos em ordem. Uma espécie de dança interna, um movimento silencioso de autodescoberta.

Foi um tempo diferente. Eu era uma pessoa bem diferente. Acreditava que havia tempo para tudo. O mundo era meu, e eu era do mundo.

Dez anos... considero um hiato extenso. Talvez nem seja um hiato; pode-se considerar uma pausa definitiva.

Não posso mais andar solitariamente. O medo costuma me consumir, e as inseguranças parecem mais fortes. Perdi a ilusão de controle pessoal.

Essa sensação de impotência — de ser alguém improdutivo, um ser humano não funcional — é extremamente intensa. Minha invisibilidade perante a vida pesa sobre mim. Estou aqui e, ainda assim, não existo. Sinto que perdi minha capacidade de olhar tudo sob a minha própria ótica. Agora presencio os acontecimentos pela minha janela digital.

Já não sei mais se estou realmente aqui. Talvez eu também não estivesse antes, porém eu tinha o poder de andar. Qual é o meu poder agora?

Entre as coisas de que sinto falta, uma das mais dolorosas é a perda da liberdade. Também sinto saudades do vento salgado das praias e do cheiro de terra úmida dos parques. De sentar em um banco de concreto e observar o universo se mover.

Eu tinha uma percepção diferente da roda da vida, e os conhecimentos que se acumularam desde então me mostram o quanto eu era ingênua. A vida gosta de nos ensinar de maneiras peculiares e, por vezes, agressivas.

Dói viver, dói aprender e dói ainda mais perceber que eu me perdi. Aquela antiga versão de mim não existe mais e nunca mais existirá. Ainda assim, eu não a traria de volta, mesmo que pudesse. É melhor guardar apenas os sabores do passado e suas memórias tocantes. Viver o hoje, por mais difícil que seja, é o ideal.

Vivemos fases. Eu tive as mais diversas fases — todos temos; faz parte da vida e da existência. É natural.

Porém, deixo aqui registrado: até este presente momento, querida Caminhante, de todas as fases, a que mais sinto falta é você.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Notas de março

Março chegou e trouxe suas águas clássicas...

Costuma ser o mês em que faço balanços da minha vida: análises, comparações e pequenas buscas internas. Dito assim, até parece algo interessante. Na prática, porém, é quase como uma tortura silenciosa — observar os muitos planos que tracei e colocá-los diante de quase todos os fracassos.

É complicado. Nunca foi segredo o meu problema em manter as coisas rodando, em sustentar a continuidade dos processos. Planejar e começar sempre foi fácil para mim. O difícil é permanecer. O progresso, quase sempre, tropeça.

Não vou mentir: às vezes perco o interesse em alguns planos. Eu começo cheia de entusiasmo, mas aquele brilho inicial acaba se apagando com o tempo. Talvez esse seja um dos motivos que sabotam a continuidade. Enfim...

Mais uma vez me vejo em rumos diferentes, navegando por mares desconhecidos. Existe algo profundamente amedrontador nesses períodos de mudança. Sinto-me exposta demais, como se estivesse à deriva por um instante. Mas acho que está tudo bem.

Às vezes penso nas convicções que eu tinha alguns anos atrás. Eu tinha absoluta certeza de que chegaria aos 30 sabendo exatamente o que queria, com todos os meus problemas resolvidos e os caminhos bem definidos. Que bobinha eu era.

Aqui estou eu, ainda vivendo em meio a um certo caos — cheio de aventuras, mudanças e incertezas. Já tive muito medo desse caminho. Ainda tenho, às vezes. Mas, de algum modo, volto sempre à mesma conclusão: talvez esteja tudo bem.

Gosto desses meus textos aleatórios, em que o único propósito é deixar palavras escaparem sobre coisas pessoais. Daqui a algum tempo vou reler tudo isso e lembrar deste dia.

E mesmo que ele seja caótico, cheio de medos e inseguranças, existe algo que permanece verdadeiro: eu ainda estou aqui, tentando fazer tudo dar certo.