Antes, quando eu não tinha medo, costumava andar por bairros aleatórios, ruas desconhecidas e me aventurar por caminhos incertos. Era quase como um hobby peculiar: vagar por lugares, conhecer o desconhecido e apreciar as formas ao redor.
Era muito mais que um exercício físico. Era um processo de autoconhecimento, no qual, enquanto eu caminhava e observava a cidade, colocava meus pensamentos em ordem. Uma espécie de dança interna, um movimento silencioso de autodescoberta.
Foi um tempo diferente. Eu era uma pessoa bem diferente. Acreditava que havia tempo para tudo. O mundo era meu, e eu era do mundo.
Dez anos... considero um hiato extenso. Talvez nem seja um hiato; pode-se considerar uma pausa definitiva.
Não posso mais andar solitariamente. O medo costuma me consumir, e as inseguranças parecem mais fortes. Perdi a ilusão de controle pessoal.
Essa sensação de impotência — de ser alguém improdutivo, um ser humano não funcional — é extremamente intensa. Minha invisibilidade perante a vida pesa sobre mim. Estou aqui e, ainda assim, não existo. Sinto que perdi minha capacidade de olhar tudo sob a minha própria ótica. Agora presencio os acontecimentos pela minha janela digital.
Já não sei mais se estou realmente aqui. Talvez eu também não estivesse antes, porém eu tinha o poder de andar. Qual é o meu poder agora?
Entre as coisas de que sinto falta, uma das mais dolorosas é a perda da liberdade. Também sinto saudades do vento salgado das praias e do cheiro de terra úmida dos parques. De sentar em um banco de concreto e observar o universo se mover.
Eu tinha uma percepção diferente da roda da vida, e os conhecimentos que se acumularam desde então me mostram o quanto eu era ingênua. A vida gosta de nos ensinar de maneiras peculiares e, por vezes, agressivas.
Dói viver, dói aprender e dói ainda mais perceber que eu me perdi. Aquela antiga versão de mim não existe mais e nunca mais existirá. Ainda assim, eu não a traria de volta, mesmo que pudesse. É melhor guardar apenas os sabores do passado e suas memórias tocantes. Viver o hoje, por mais difícil que seja, é o ideal.
Vivemos fases. Eu tive as mais diversas fases — todos temos; faz parte da vida e da existência. É natural.
Porém, deixo aqui registrado: até este presente momento, querida Caminhante, de todas as fases, a que mais sinto falta é você.
Nenhum comentário:
Postar um comentário