Segundo o dicionário, a palavra decepção significa:
Sentimento de tristeza, descontentamento ou frustração que surge quando expectativas, esperanças ou crenças sobre pessoas, situações ou resultados não se concretizam. Uma forma de desilusão ou desapontamento que ocorre quando a realidade difere do que era esperado.
Chega a ser assustador quando me dou conta da forma como um texto de dicionário pode externalizar sentimentos profundos — ainda mais quando o sentimento é algo que estou sentindo no momento.
Decepções fazem parte da vida, das fases, dos momentos, das pessoas e de tudo o mais. Porém, quando sentimos, é sempre surpreendente. As decepções não brotam em terras secas, não vêm de indivíduos desconhecidos ou de pessoas com laços afetivos positivos... Elas nascem e criam raízes onde não esperamos. Constroem-se nos ambientes que amamos e destroem confianças que demoram anos para serem construídas.
Decepção dói, corrói, machuca e cria dor... Decepção mata.
A nascente de tanta frustração vem de mim mesma. Essa é minha primeira fonte.
Eu nunca, de fato, me amei. Nunca fui boa para mim mesma, nem para nenhum outro ser humano. Isso é claro. Deixo essa dolorosa informação registrada: eu sou minha maior decepção. Esperava de mim mesma algo melhor, algo maior. Criei a expectativa de um mundo incrível e glorioso. Não cumpri o dever comigo mesma. Apenas sonhei e nunca fui capaz de realizar algo brilhante. Eu sou uma fraude ambulante, um grande desperdício de tempo e espaço.
A segunda decepção vem de onde eu imaginava que viria, mas ainda havia esperanças. Meu círculo familiar nunca foi exatamente estruturado. A configuração é estranha, mas ainda é uma família. Então, criei uma certa ilusão de que seria compreendida. Mas eu não sou, e nunca fui.
Apenas olham meus fracassos, apontam minhas falhas e esfregam nas minhas narinas o quão inútil eu sou. É dolorido viver isso. É dolorido ser a filha não funcional e improdutiva. Se bem que não julgo tanto. Depositaram em mim confiança e expectativa para, no fim, eu me tornar um grande nada.
Talvez a verdadeira dor não seja por não ser compreendida, mas por nunca, em nenhum espaço de tempo, questionarem a mim o motivo de eu não ter conseguido. Claro que vão falar sobre as mãos que se ergueram ao longo do caminho. Mas ninguém fala que a mesma mão que estenderam também foi a mesma que me empurrou.
Estou aqui, vivendo as minhas dores. Inalando as frustrações. Existindo num eterno vazio.
Essa decepção me impede de muitas coisas. Não tenho coragem de me olhar no espelho. Em alguns dias, eu não consigo me levantar da cama.
Enquanto eu me enrolo em mim mesma e me alimento das minhas amarguras, dentro da minha cabeça existe uma voz — a minha voz — gritando por ajuda. Ninguém escuta. Eu estou me esvaindo a cada dia.
Preciso me levantar e fazer algo pela vida. Mas questiono se, diante de tanto descontentamento, existe motivo para viver.
Nenhum comentário:
Postar um comentário