Sabe aquelas noites em que a insônia insiste em pesar sobre os ombros? Quando os olhos simplesmente se recusam a fechar? Pois bem, essas madrugadas já se tornaram familiares para mim. Com o tempo, aprendi a aceitá-las e até a encontrar certo conforto nesses intervalos de vigília.
Numa dessas ocasiões em que o descanso não quis aparecer, passei a vagar pelos cômodos da casa. Do quarto para a sala, da sala para o banheiro, do banheiro para a cozinha e da cozinha até a varanda. Um percurso repetido tantas vezes que já parecia coreografado, como se fosse parte de um velho repertório.
Quando cheguei à varanda, acomodei-me numa cadeira estofada e deixei a cabeça repousar sobre a mureta. Fiquei ali por algum tempo, observando o céu noturno. As nuvens cobriam tudo, escondendo o luar e deixando no ar aquele pressentimento silencioso de chuva próxima. O quintal permanecia mergulhado na escuridão, enquanto as árvores balançavam lentamente ao compasso do vento. O silêncio era denso, quase sepulcral.
A mesma solidão que, por vezes, me consome é também aquela que me acolhe em noites como essa. Quando os dias se tornam intensos demais, encontro algum alívio em me recolher durante a madrugada, dentro desse espaço silencioso que carrego em mim. É um repouso estranho, mas necessário. Algo que, de certa forma, acalma minha mente cansada.
A casa permanecia apagada, e a única claridade vinha das janelas das residências vizinhas. Não havia muito a fazer além de permanecer ali e permitir que aquele instante existisse.
Era tudo tão quieto, tão sereno. Naquela madrugada, meus pensamentos não gritaram como costumam fazer. Em vez disso, vieram em forma de sussurro, como um convite delicado para olhar o mundo com menos peso. Foi assim que acabei me lembrando das minhas antigas fantasias de infância.
Quando criança, minha imaginação era fértil. Eu gostava de acreditar que os objetos inanimados possuíam algum tipo de vida secreta e que, quando ninguém estava olhando, respiravam, se moviam e até conversavam entre si.
Era uma ingenuidade doce, quase ingênua demais. Ainda assim, enquanto permanecia ali naquela quietude, percebi que talvez houvesse um pequeno fragmento de verdade escondido dentro dessas fantasias. Durante as madrugadas silenciosas, as construções ao redor parecem adquirir uma espécie de alma — algo que não conseguem revelar à luz do dia, mas que se insinua quando tudo repousa. Seus vidros empoeirados, os matos rasteiros no quintal ou as telhas gastas pelo tempo parecem carregar histórias que ninguém escuta.
Talvez seja apenas imaginação… mas encontrei certa magia nas casas ao meu redor. E também percebi algo semelhante na minha própria morada, que um dia foi meu castelo e hoje continua sendo o castelo da minha filha.
Enquanto muitos se entregavam às folias da madrugada, eu vivia algo silencioso, quase secreto. Agradeci, em pensamento, à minha mente por ter me conduzido até a varanda. Entre todas as pequenas experiências noturnas que já tive, aquela certamente foi uma das mais singulares.
Respirei mais uma vez. O ar estava pesado e morno.
Então me levantei e voltei para dentro. Ainda precisava insistir um pouco mais no sono. Mas, naquela noite, a madrugada já tinha me oferecido companhia suficiente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário