quinta-feira, 18 de junho de 2026

No fundo, eu me encontrei

Começou com quadros de depressão e ansiedade. Com o tempo, eu já não queria levantar da cama. Tinha dificuldade para manter rotinas, não fazia nenhum exercício físico e descontava a raiva e a revolta na comida. Não é de se espantar que esse tenha sido o primeiro gatilho para a obesidade mórbida grau III.

Depois vieram efeitos neurológicos mais graves, como a epilepsia hipocampal. Pouco tempo depois, surgiu a hipertensão crônica. Agora, estou investigando um sopro no coração. Nessa situação, me informaram que, caso eu não mudasse, minha expectativa de vida dificilmente passaria dos 45 anos.

Muitas consultas marcadas. Exames e mais exames agendados. Médicos e enfermeiras olhando para mim com um misto de preocupação e compaixão. E eu, aos 31 anos, me sentindo completamente perdida. Caí no famoso efeito dominó: quando uma comorbidade é descoberta e, pouco depois, várias outras começam a aparecer.

Foi um golpe seco. Um impacto que me obrigou a enxergar minha realidade de outra forma. Entrei nessa situação por erros meus. Erros que poderiam ter sido evitados. Mas a depressão é corrosiva. É difícil pedir ajuda quando se tem medo de ser julgada.

Agora, com esse novo olhar, muitos filtros sobre a minha realidade se desfizeram. É claro que essa é uma situação reversível. Exige autocuidado. Exige seguir as orientações médicas, comparecer às sessões de terapia e tomar as medicações nos horários corretos. Nada vai mudar da noite para o dia. É um processo, uma evolução construída pouco a pouco. Exige disciplina.

O autocuidado é algo novo para mim. Nunca fui de me cuidar. Apenas me entregava ao marasmo e a uma vida regada por tristezas. Não porque esperasse ajuda de alguém, mas porque aceitava afundar e torcia pelo meu próprio fim.

Ainda me sinto vazia e triste de formas que não sei explicar. Dói não apenas no corpo físico. Dói por dentro. Não quero me fazer de coitada. Nunca fui e não quero ser.

Na verdade, não sei exatamente o que quero. Parte de mim implora pela luta, pela tentativa de se cuidar, pela insistência em não desistir. Outra parte sussurra que basta deixar acontecer. Esse não era meu desejo? De acabar comigo mesma? Pois bem, consegui entrar oficialmente no caminho da autodestruição.

Então olho para a única pessoa com quem me importo de verdade. Essa pessoinha tem apenas dez anos. Não quero ser injusta com ela. A decisão não veio por mim. Veio por ela.

Se não faço por mim, então faço por ela.

Estou aqui, fazendo algo por mim mesma. Talvez seja a primeira vez, em toda a minha existência, que tomo uma decisão genuinamente boa para mim. Finalmente pedi ajuda. Agora sei que estou tentando de verdade. Sei que entrei em um novo caminho.

Não posso desistir.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

A poeira suspensa

O ar está abafado, quente e úmido. O ventilador ligado emite um som irritante, e o vento que joga no quarto parece não ser suficiente. Mas o que seria, de fato, suficiente?

Uma crise existencial chega sem pedir licença. Viver nesse caos intenso é perturbador.

A cama cheira a amaciante. As roupas de cama foram trocadas ontem. O lençol me envolve como um casulo. O toque é delicado, talvez aconchegante… Não é possível ter certeza.

Todos possuímos sentimentos estranhos. Faz parte do que é ser humano. Alguns precisam se aprofundar em exageros, em qualquer coisa capaz de extravasar esses sentimentos. Eu continuo cultuando a existência do meu quarto.

Encaro o teto. Pequenas aranhas fazem suas teias nos cantos das paredes. A luz entra pela janela; os raios de sol estão lancinantes. Existe uma poeira fina suspensa no ar.

São 11h da manhã, e eu ainda não me levantei.

Vivemos em uma sociedade performática. Performamos para encobrir nossos sentimentos estranhos. Não existem meios seguros de se entregar a eles. Se todos nos entregássemos, o mundo seria um grande manicômio. Então continuamos atuando dentro desse enorme teatro que é o mundo.

Não sei para os outros, mas, para mim, isso é exaustivo.

A química do meu cérebro parece não funcionar corretamente. Não possuo muitos meios de extravasar. Percebi que sou triste. Não há beleza nisso.

As pessoas romantizam muito a tristeza, mas, na verdade, é tudo uma merda.

A tristeza é como uma droga: viciante. Vamos nos afundando como em um poço de lama, sendo consumidos lentamente, atolando cada vez mais. Voltar é difícil.

Às vezes, eu gostaria de ir até uma praça e gritar até perder a voz, acordar todos ao redor e depois simplesmente ir embora. Mas não posso. Estaria quebrando a primeira regra da convivência social: não seja inconveniente.

Deve ser interessante viver sem julgamentos. Sem precisar cumprir expectativas. Sem precisar justificar ações.

Essa frase poderia facilmente sair da boca de um louco introvertido ou de alguém tentando justificar os próprios desvios.

Mas eu só estou aqui, aos 30 anos, olhando a poeira suspensa às 11h da manhã, em uma crise existencial, numa cama que cheira a amaciante, pensando até onde tudo isso vale a pena.

Essa é a sensação do vazio.

Vazia por dentro e por fora.