quarta-feira, 3 de junho de 2026

A poeira suspensa

O ar está abafado, quente e úmido. O ventilador ligado emite um som irritante, e o vento que joga no quarto parece não ser suficiente. Mas o que seria, de fato, suficiente?

Uma crise existencial chega sem pedir licença. Viver nesse caos intenso é perturbador.

A cama cheira a amaciante. As roupas de cama foram trocadas ontem. O lençol me envolve como um casulo. O toque é delicado, talvez aconchegante… Não é possível ter certeza.

Todos possuímos sentimentos estranhos. Faz parte do que é ser humano. Alguns precisam se aprofundar em exageros, em qualquer coisa capaz de extravasar esses sentimentos. Eu continuo cultuando a existência do meu quarto.

Encaro o teto. Pequenas aranhas fazem suas teias nos cantos das paredes. A luz entra pela janela; os raios de sol estão lancinantes. Existe uma poeira fina suspensa no ar.

São 11h da manhã, e eu ainda não me levantei.

Vivemos em uma sociedade performática. Performamos para encobrir nossos sentimentos estranhos. Não existem meios seguros de se entregar a eles. Se todos nos entregássemos, o mundo seria um grande manicômio. Então continuamos atuando dentro desse enorme teatro que é o mundo.

Não sei para os outros, mas, para mim, isso é exaustivo.

A química do meu cérebro parece não funcionar corretamente. Não possuo muitos meios de extravasar. Percebi que sou triste. Não há beleza nisso.

As pessoas romantizam muito a tristeza, mas, na verdade, é tudo uma merda.

A tristeza é como uma droga: viciante. Vamos nos afundando como em um poço de lama, sendo consumidos lentamente, atolando cada vez mais. Voltar é difícil.

Às vezes, eu gostaria de ir até uma praça e gritar até perder a voz, acordar todos ao redor e depois simplesmente ir embora. Mas não posso. Estaria quebrando a primeira regra da convivência social: não seja inconveniente.

Deve ser interessante viver sem julgamentos. Sem precisar cumprir expectativas. Sem precisar justificar ações.

Essa frase poderia facilmente sair da boca de um louco introvertido ou de alguém tentando justificar os próprios desvios.

Mas eu só estou aqui, aos 30 anos, olhando a poeira suspensa às 11h da manhã, em uma crise existencial, numa cama que cheira a amaciante, pensando até onde tudo isso vale a pena.

Essa é a sensação do vazio.

Vazia por dentro e por fora.

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