domingo, 26 de julho de 2026

A que custo?

Há uma casa.

As panelas nunca estão vazias. A geladeira continua cheia. A água escorre da torneira, a energia permanece ligada e a internet nunca cai. As roupas aparecem limpas no guarda-roupa e as consultas médicas acontecem quando precisam acontecer.

A criança cresce sem conhecer a palavra "falta". A mãe, por outro lado, aprende diariamente o significado dela.

Há ausências que não são de comida, nem de dinheiro. São ausências de abrigo. O corpo permanece dentro da mesma casa, mas já não existe lugar para repousar.

Um dia existiram promessas. Hoje existem portas fechadas antes mesmo de serem trancadas. Conversas que cessam quando ela entra no cômodo. Olhares que dizem o que a boca já não precisa repetir.

Indesejada. É uma palavra curiosa. Não precisa ser pronunciada para ocupar todos os espaços da casa. 

Pessoas adoecem. Famílias também.

Há doenças que prendem o corpo à cama e outras que acorrentam alguém a um lugar onde permanecer dói tanto quanto partir. A dependência tem o hábito de vestir roupas discretas. Vista de fora, parece apenas alguém que ainda não conseguiu seguir em frente.

Vista de dentro, parece uma sentença. Então surgem as pequenas condenações diárias.

Ela dorme demais.
Nunca faz as coisas na hora certa.
É ingrata.
É egoísta.
Não sabe cuidar da própria filha.
Não funciona como deveria.
Talvez fosse melhor se fosse embora.

Curioso como algumas palavras nunca levantam a voz. Ainda assim, encontram exatamente onde machucar.

Ela aceita.

Aceita porque a criança precisa continuar dormindo em um quarto seguro. Porque a comida continua chegando à mesa. Porque existe um teto. Porque, às vezes, amar alguém significa negociar consigo mesma até esquecer o próprio valor.

Toda ajuda cobra alguma coisa. Algumas cobram dinheiro. Outras cobram a dignidade.

Por fora, a fotografia parece bonita. Uma família presente. Uma mãe em recuperação. Uma criança protegida.

Por dentro, alguém desaparece um pouco mais todos os dias.

Ela sonha em partir. Não porque acredita que o mundo será gentil. Mas porque descobriu que existem lugares onde permanecer machuca mais do que enfrentar o desconhecido.

Talvez a liberdade não seja o fim da dor. Talvez seja apenas a primeira oportunidade de sentir uma dor que, enfim, possa cicatrizar.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Paz

Paz. Não haveria palavra melhor para definir este momento.

Às vezes, eu me cobro por coisas tão pesadas que pequenos desafios acabam se tornando verdadeiros obstáculos.

Hoje, porém, não estou sentindo esse peso tão esmagador. Minha cabeça está em silêncio, e os únicos sons que a atravessam são o canto dos pássaros e o vento balançando as folhas.

O sol da manhã estava reconfortante. A paisagem das montanhas convidava para um café, e o cheiro da terra é incomparável a qualquer outra coisa. Talvez viver aqui seja uma saída para os meus medos e desafios.

É provável que eu esteja embelezando demais este momento. Quando estamos em paz, é fácil esquecer das dificuldades. E morar no interior também é um grande desafio. Ainda assim, todos os dias me pego pensando em como seria desafiar a minha vida e deixar a cidade para trás — com seus vizinhos barulhentos, carros incessantes e ar poluído.

Morar aqui deve ser, ao mesmo tempo, tranquilo e desafiador. Cuidar de uma propriedade rural está longe de ser algo simples.

É preciso ter meios de locomoção, como um carro ou uma motocicleta, porque andar a pé nem sempre é uma opção. Também é necessário adaptar-se ao ritmo do lugar. Aqui, as coisas acordam antes do sol nascer e descansam antes que a noite termine de chegar.

Uma vida simples, sem luxos nem regalias. Será que é isso que a minha alma precisa? Abandonar um mundo que nunca dorme e trocar tudo por uma vida mais silenciosa?

Não sei qual seria a minha decisão. São apenas devaneios de uma mente que grita todos os dias e que, hoje, finalmente está em silêncio.

Por enquanto, basta-me aproveitar esta paz.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Ergástulo

A etimologia da palavra prisão deriva do latim prehensio, -onis, que significa "ato de agarrar, de segurar ou de prender".

No início, o termo não era sinônimo de um edifício ou de um lugar destinado a manter pessoas privadas de liberdade por contrariar leis estabelecidas. Referia-se apenas ao ato de capturar alguém ou ao estado de sujeição de quem havia sido capturado. Claramente, as coisas mudaram.

Grande parte das pessoas associa a palavra apenas ao cárcere: à privação do direito de ir e vir. Eu já não consigo enxergá-la somente dessa forma.

Também é prisão subjugar alguém pelas próprias crenças. Desmerecer sentimentos. Invalidar o lento processo de reconstrução de uma pessoa. Depositar expectativas desmedidas e esperar que ela corresponda a todas. É manter alguém preso ao medo, segurá-lo quando deseja partir e, ao mesmo tempo, ameaçar abandoná-lo.

Ainda assim, talvez a mais cruel de todas as prisões seja aquela que não possui grades.

A prisão mental não faz barulho. Ela não precisa de cadeados, muros ou sentenças. Basta um quarto escuro, compromissos adiados, mensagens não respondidas e a sensação constante de que levantar da cama exige uma força que já não existe.

Nem todas as pessoas compreendem o que é a depressão profunda. Aquela que consome as entranhas, rouba a vontade de continuar caminhando e que, ao mesmo tempo em que traz a melancolia, impõe um vazio difícil de nomear. A solidão cercada por pessoas. Outro ergástulo doloroso.

Há dias em que a maior vitória é apenas continuar existindo. Mas essa vitória raramente é vista. Não existe redenção imediata. Poucos enxergam as pequenas evoluções. Poucos compreendem que sobreviver também é uma forma de resistência.

Resta olhar para o caminho e tentar encontrar a própria libertação, mesmo que ela cobre um preço alto. Algumas portas só se abrem depois de abandonarmos aquilo que nos mantinha cativos. E, por mais doloroso que seja o processo, ainda é melhor reconstruir-se a partir das próprias ruínas do que aceitar, em silêncio, uma vida inteira dentro da mesma masmorra.