quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Menos que poeira

Respirar, expirar. Sentir, habitar e viver. Arranjar problemas, resolver problemas. Trabalho, comida, água e, às vezes, algo que expurgue o cansaço. Continuar sempre e repetir o processo.

Dia após dia, vivemos nesse mundo um tanto teatral, recheado de ideias, composições e reações. Porém, poucos questionam o sentido das coisas. Apenas aprendem aquilo que consideram necessário e imitam o processo.

Existir se tornou comum, e os questionamentos sobre si mesmo ou sobre os propósitos que desejamos já não existem mais. Tornou-se natural subsistir sem ter um rumo. É deprimente.

No fim do dia, ninguém sabe do que somos feitos ou qual material compõe nossas almas, pois ninguém se interessa. Todos foram moldados para continuar servindo e nunca pensar.

Não é comum existirem seres questionadores. É um tanto curioso tal fato, mas existe um motivo para não se encontrar pessoas que não aceitam o sistema. Questionar a existência está atrelado a questionar o sistema em que vivemos, e questionar o sistema é o mesmo que questionar os líderes do sistema. Líderes não gostam de ser questionados.

A sociedade se formou baseada na necessidade de um líder. Precisamos seguir alguém que proporcione soluções para os nossos problemas e que nos proteja das moléstias do mundo. A falta de moralidade nasce quando o líder decide ser o único beneficiado e deixa de suprir as necessidades básicas de sua tribo.

A corrupção existe desde sempre. Beneficiar-se em cima dos outros é uma ferramenta usada como forma de sobrevivência. Não é ético ou honroso, mas foi dessa maneira que muitas sociedades foram criadas. Mesmo dentro da natureza, é possível observar que, em uma ninhada de filhotes, o mais forte passará por cima do mais fraco e, assim, sobreviverá.

Não comecei esse ensaio para falar de política. Reconheço que a política existe em tudo, mas essa não é a proposta do texto.

A questão central aqui é: o mundo vive no automático. As pessoas não questionam coisas simples, como os próprios valores ou seus objetivos. Apenas copiam e colam aquilo que veem. É triste perceber que todos seguem sem olhar realmente para onde vão. Poucas pessoas nadam contra essa maré, e esses poucos são considerados loucos.

Acho interessante observar o mundo e as pessoas. Há algum tempo, nasceram em mim essas ideias malucas, principalmente sobre o porquê de vivermos da maneira como vivemos. Existem diversas soluções plausíveis para essa pergunta. E, se questionarmos cem pessoas, cada uma delas dará uma resposta única, pois se baseiam nas próprias referências culturais, morais e éticas. É deslumbrante ver as singularidades de cada pessoa refletidas em suas respostas. O fato de sermos seres únicos, com DNAs únicos, pensamentos únicos e de nunca haver outro ser exatamente igual é incrivelmente belo.

Logo, se todos somos diferentes, então do que somos formados? Quero mais do que uma resolução baseada em conceitos biológicos e químicos. Quero saber qual é a essência vital que nos mantém vivos todos os dias. Quais são as crenças e convicções que nos fazem levantar da cama para viver mais um dia? Existe alguma crença ou convicção? Por que continuamos existindo?

Eu encontrei algumas respostas baseadas na minha interpretação de mundo. Acredito que o universo é belo demais para ter sido formado a partir de uma expansão violenta denominada Big Bang. Acredito que um ser, entidade ou divindade cósmica criou o espaço e o tempo, porém esse ser nunca esteve interessado em interferir nessa criação. Ele criou e deixou o restante da evolução realizar seu trabalho. Perante esse ser, ou mesmo perante o universo, somos menos do que poeira, e nada do que fazemos possui importância alguma.

Porém, veja bem: isso não quer dizer que nossas crenças, nossa moralidade ou nossas problemáticas sejam sem valor. Individualmente, tudo isso possui valor, porque, se nada disso nos importasse, então não haveria motivo para nos mantermos vivos. Entretanto, diante do universo, tudo isso não possui relevância.

Acho que esse é só mais um dos textos em que escrevo de forma muito aleatória e que começou com uma ideia, mas a escrita ganhou vida e não pude tomar as rédeas do caminho que esse destrinchamento seguiu. Ou seja, escrevi sem rumo. Irônico, não?

No início, provavelmente eu quisesse acusar algo ou alguém pela vivência de pessoas ignorantes, mas a ignorância pode ser uma dádiva. Viver sem questionar certas coisas não causa um confronto mental incessante.

Enfim, vivo e sigo nessas convicções estranhas e nesses pensamentos embolados. Continuo com alguns pesos na consciência; todavia, se houver uma forma de expurgar os questionamentos contraditórios, talvez eu consiga sobreviver de alguma forma.