terça-feira, 25 de agosto de 2026

Talvez em outra vida

Uma viagem no tempo e um recomeço. Novas possibilidades, novos caminhos, novas escolhas. Porém, existe um detalhe: tudo o que veio antes é apagado. Nenhuma memória, nenhum aprendizado, nenhuma dor.

Seria compensatório viver tudo de novo? Será que eu tomaria decisões diferentes? Será que chegaria a este ponto onde estou hoje?

Hoje dói, mas ainda existe uma pessoa que me faz ficar. Em um novo mundo, ela não existiria. Talvez ela também não precisasse passar por todos esses traumas. Além do mais, não é possível sentir saudades de algo que nunca se teve.

Esses devaneios são comuns em minha mente. Costumo acreditar que, se eu não tentasse, jamais saberia. Agora começo a questionar essa crença. Porque agora que sei, talvez fosse melhor não ter tentado.

Talvez, em outra realidade ou em outra vida, eu seja diferente. Um pouco mais útil, um pouco mais feliz. Em outro mundo, eu seria a melhor amiga de alguém, teria uma vida estável, seria a garota de uma pessoa, teria uma boa carreira, seria importante de alguma forma.

Não há como voltar ao passado. Não existem maneiras de mudar o que foi feito. E talvez não seja saudável devanear sobre coisas que simplesmente são como são.

Todas essas dores podem ter ensinado alguma coisa. Talvez começar melhorias a partir do que sei traga um futuro um pouco melhor. É estranho pensar que algo virtuoso pode nascer de uma terra sangrenta.

Mas tudo isso são talvezes, não garantias. Não existem garantias para nada, nem certezas, nem caminhos fixos. Tudo muda, se enrola, se embola e retorna a uma realidade diferente. É uma imensa gama de complexidades.

Nada é exatamente branco ou exatamente preto. A vida é cinza.

Eu sinto saudades de algo que não vivi.

Ainda assim, aprendi a me contentar com a vida que tenho. Mesmo enfraquecida, continuo caminhando. Talvez alguma coisa venha a melhorar. Talvez, um dia, eu finalmente pare com esses devaneios que me levam a labirintos sem saída.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Faxina

 Conhece a história do quarto desorganizado? Aquele velho conto que habita entre filósofos e psicólogos e que se propagou pela internet desde os primeiros anos das redes sociais?

A história é simples. Vou contá-la da maneira como a conheço.

Existe um quarto, um cômodo comum, habitado por um ser humano. O ambiente é um completo caos. Tudo está fora de ordem. Poeira acumulada nas janelas, na mesa de canto e nas estantes de livros. Roupas sujas empilhadas sobre uma cadeira; roupas limpas amontoadas dentro do armário, entre gavetas emperradas e cabides tortos. Objetos espalhados por todos os lados, canecas de café esquecidas nos cantos e papéis amassados pelo chão. A cama, que deveria representar descanso, encontra-se em estado lamentável: lençóis sujos, travesseiros manchados e cobertas com um odor desagradável.

Diante de uma situação dessas, espera-se que o dono do quarto arregace as mangas e comece a faxina imediatamente. Mas ele toma uma decisão inesperada. Entra no cômodo, empurra algumas coisas para o lado, joga a bagunça da cama no chão, deita-se e dorme.

A primeira reação de quem testemunha essa cena costuma ser a descrença. Como alguém consegue viver assim? A segunda é ainda mais previsível: concluir que o dono do quarto é imundo, preguiçoso ou relapso.

Julgar é fácil quando se observa a vida apenas pela própria perspectiva. Mas e se tentarmos compreender essa pessoa?

E se ela estiver gastando quase toda a energia que possui apenas para continuar existindo? E se já tiver tentado arrumar o quarto inúmeras vezes e fracassado em todas elas? Talvez seja alguém tão exausto que já cogite desistir daquele espaço.

Afinal, colocar um quarto em ordem exige, antes de tudo, fazer ainda mais bagunça. É preciso tirar tudo do lugar para que, depois, cada coisa encontre o seu devido espaço. Isso demanda tempo, paciência e obstinação. Exige ainda mais de alguém que já não acredita ser capaz de continuar.

Talvez essa pessoa não precise de julgamento. Talvez precise apenas de alguém disposto a ajudá-la a começar.

Sempre volto a essa história quando penso na minha própria vida. E, de certa forma, isso me desanima.

Quando reflito sobre as coisas que me entristecem, consigo listar inúmeras delas. A perda da minha independência talvez seja a mais intensa. Há também a depressão, que preciso enfrentar diariamente. O medo constante de que algo aconteça à minha filha. E a lista continua, alternando entre problemas imensos e outros aparentemente pequenos.

No entanto, nada me derrota tanto quanto enfrentar as minhas próprias falhas.

Aceitar os próprios defeitos é como mergulhar em água congelante. É voltar-se para dentro de si e encarar monstros antigos. É observar, sem desvios, os detalhes constrangedores que precisam mudar. E mexer nessas falhas dói. Fere o orgulho, desmonta convicções e obriga a abandonar versões confortáveis de quem acreditávamos ser. Exige, novamente, tempo, paciência e obstinação.

Penso na minha mente como esse quarto. Um cômodo tomado pelo caos, esperando por uma boa faxina. E, para que essa faxina aconteça, é inevitável atravessar o desconforto.

Aceitar e confrontar cada falha talvez elimine boa parte daquilo que alimenta meus sentimentos mais negativos. Ainda assim, devo admitir: isso está longe de ser simples.

Todos os dias, ao acordar, preciso me lembrar dessa faxina. E, antes mesmo de começar, já me sinto cansada. O peso da tarefa parece consumir a energia que eu ainda nem usei.

Talvez amanhã eu consiga dobrar uma roupa. Depois, limpar uma estante. Quem sabe, um dia, abrir a janela.