terça-feira, 15 de setembro de 2026

Até deixar de ser

Sou praia, com areia branca e úmida, cercada por maresia e mar.
Sou cachoeira, com água forte, turbulenta e rochosa.
Sou lua, com sua luz passageira, inalcançável e serena perante a solidão.

Eu sempre fui muitas coisas, ainda seria muitas mais. Essa é a parte mais interessante de viver: a possibilidade de não ser um molde padronizado. E isso é lindo.

É necessário reconhecer que isso, esse agora, o momento em si, não é realmente nosso. A ideia de possuir, de ter direito a algo, não é verdadeira. É apenas um sentimento que sacia a necessidade de segurança, mas nada aqui é meu ou seu. Tudo é passageiro e, hoje, o que te pertence, amanhã pode ser de outra pessoa.

Entretanto, a criação, de fato, pertence ao criador? Somos capazes de controlar nossas invenções e dar um rumo às nossas produções? O idealizador é responsável pela sua obra?

Questões e mais questões. Todas parte de um mesmo eu, da soma das muitas coisas que eu sou e das muitas coisas que ainda vou ser.
Hoje eu escrevo e, amanhã, esse texto não será mais meu. Será de quem quiser ler e levar para a alma ou para o coração.

Se nada nos pertence e nada controlamos, o que posso dizer sobre as minhas memórias? Algumas fracas, vazias ou espinhosas; outras com formas e cheiros. Elas são minhas, correto?

A forma como as recordações existem dentro de mim são partes de uma formação baseada na minha perspectiva. O que eu vivi é diferente do que meu semelhante viveu, ainda que tenhamos vivido a mesma coisa juntos.
Ainda que as memórias possam ser minhas, é provável que, de fato, não me pertençam com afinco. Hoje eu me lembro bem, mas um dia esquecerei, e isso é triste.

Memórias são ondas. Algumas lentas, ritmadas e tranquilas; outras fortes, violentas e avassaladoras. Mas ondas que vêm, trazem algo e depois se vão, levando tudo embora.
As memórias podem até ser minhas, mas vão se perder no caminho.

Essa narrativa me traz um misto de sentimentos. Isso me cerca de tristeza, alívio e descrença. Posso concluir que sentimentos são tão únicos, com intensidades diferentes.

Nossas emoções são nossas de alguma forma, onde o que o outro sente diante das adversidades será tão singular a ele mesmo e talvez não represente nada para a minha existência. Além da ideia de que cada ser lida de forma diferente com o que sente: as frustrações, os amores, as dores e as felicidades.

Pessoas são capazes de mergulhar tão fundo nas emoções. Alguns esquecem que esse mergulho é perigoso, diante das rochas do caminho, dos redemoinhos à espreita e das correntezas intensas.
O que sentimos é cachoeira, não apenas uma quedinha, mas sim cachoeira.

Então o meu eu pertence a mim! Pois o que poderia ser eu? Não há outro de mim. Não há quem possa sentir, que possa passar pelas experiências que passei, que possa ver do meu ponto de vista. Não há alguém que seja eu, a não ser eu mesma.

Sou eu, única, longe, com a minha luz, com a minha solidão e meus medos, com minhas histórias e meus pensamentos. Eu e apenas eu.
Mas eu pertenço a mim mesma quando eu me for? De ninguém serei, e nada disso haverá importância.

Chegamos nesse ponto. Nada nos pertence, mas tudo o que somos nos pertence. Haverá um dia em que nada mais será nosso e, enfim, partiremos. E tudo fica para trás.

Somos espuma, bolhas de sabão, que voam e então estouram.

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